quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Retrato de Apolo - capítulo 4


O rapaz passou a visitar regularmente o pintor e, ao fim de uma semana, depois de terem experimentado sessões de trabalho intenso, sem resultados relevantes, os hábitos de ambos mudaram, de modo que, na rua inclinada que crescia das faldas da serra até à ponte, havia quem jurasse vê-los frequentemente por bares e tavernas e lojas e buracos; a uns diziam que andavam à procura de um prato de sopa, que era o que mais se comia na região; a outros, que esperavam encontrar inspiração no lusco-fusco de uma taverna tardia ou na sombra de uma árvore cansada. E, quando a noite tropeçava por aqueles cabeços e mergulhava no rio, os dois pareciam estar no primeiro andar debruçado sobre a rua, em silêncio imóvel, criando mundos em telas que o mestre ia pendurando à janela, para secarem às estrelas da noite e ao sol do dia. De nenhuma delas transpirava qualquer espécie de sopro divino e por mais que o artista se esforçasse, o traço parecia sempre o mesmo, de tal forma que se chegou a pensar que não estaria bem da cabeça o homem, não senhor.
Pois, aquele dia foi como o anterior. O rapaz dormira por ali, numa esteira, junto à lareira que se desfazia em cinzas sobre a pedra, como se a madeira que se consumia nela tivesse de se arrepender de um dia ter sido árvore e de a árvore um dia ter sido seiva e de a seiva um dia ter sido alma e de a alma um dia ter sido alguém. Os pintos crescidos por ali largavam já a mãe galinha e aventuravam-se por cima do cobertor do modelo, fazendo dos seus cabelos entrançados um linho macio e quente. O pintor chegou com uma caneca de cerveja quente e aqueceu as entranhas com ela. O rapaz bebeu dos lábios do homem uma última gota e enrolou-a na língua, como se estivesse a engoli-la com um naco de pão. Depois, disse-lhe delicadamente que ia pentear-se para se pôr no seu posto de trabalho. As aves formaram um pelotão à frente da fêmea sua mãe e seguiram o caminho da luz, até à cancela que abria e fechava com um ruído mínimo, mas que fora o suficiente para que  rapaz não tivesse dormido. Vendo-o tão mal de feições, o homem disse-lhe:
- Pois, mas um pouco de água fresca no rosto ia fazer-te bem.
O rapaz lavou-se, penteou-se, perfumou-se. A ideia era começarem já um novo retrato, diferente de todos os outros que já estavam à janela há mais de uma semana e que, com tanto sol e chuva e vento se enrolavam uns nos outros, incolores. 
- Precisava que me contasses a tua história: eis porque não consegui pintar-te com arte e beleza. Não conheço nada de ti. Não sei como te chamas. Não sei quem és. Tudo em ti é estranho como o mar que ignoro, embora suspeite que seja belo e grandioso e sublime.
- Sou Apolo – respondeu o Apolo.
- Eu sou Macário – respondeu o Macário – e sou pintor. Quando está calor, tenho fugir do sol, para pintar.
- Hoje o sol não veio, ainda é cedo.
- São talvez nove horas da manhã – disse o Macário, abrindo a janela da casa. – Se não veio também não virá. – E acrescentou, baixando o tom de voz, como se fosse revelar um segredo: Não gosto do sol.
- Nem eu – disse o outro, quase sem mexer os lábios.
– Mas agora que me falaste de ti, diz-me: porque queres tu que eu te pinte se atrais legiões de raparigas das aldeias e a tua fama chegou até às comarcas vizinhas?
- O meu brilho é mais fátuo que a chama antiga desta lareira amarga.
O homem entendia bem o que dizia Apolo. O seu olhar traía-o:
- Estás cansado de ver o Sol e de ninguém te ver a ti? – disse ele com uma luz mágica na voz. Apolo afastou-se da janela, em cujas vidraças se debatiam poalhas de luar.   
– Por isso – disse ele, sentindo-se compreendido – quero ser representado numa tela que todos admirem.
- Para te desenhar, terei de te roubar um pouco do brilho. Um raio de uma madeixa tua, um raio do teu olhar, um traço de beleza do rosto que é teu... E juntar esses brilhos aos cristais das águas e...
- Não preciso de detalhes, Macário – interrompeu o jovem, sentando-se no estrado, de punhos cerrados sob o queixo. – Desenha-me belo. Depois dir-te-ei se gosto de mim como tu me queres. E se gostar o suficiente, eu próprio te darei inspiração para seres fantástico.