domingo, 26 de junho de 2011

Se não fosse...

Se não fosse hoje
Seria talvez ontem
Ou então amanhã

Se não estivesse calor
Estaria frio talvez
Ou então assim-assim

Se eu não estivesse sentado
Talvez estivesse de bruços
Ou de papo para o ar

Se não fosse dia
Talvez fosse noite
Ou então madrugada

E se a vida acabasse
Que mais restaria?
O nada o nada o nada

Hoje

Hoje
O Sol pôs-se à janela
E beijou os meus lençóis
Antes de se deitar comigo

Hoje
O mar fugiu p'ras estrelas
Mas deixou-me uma concha
Antes de me abandonar

Hoje
Um navio trouxe-me o mar de volta

Hoje
Um telegrama roubou-me o Sol da minha cama

sábado, 25 de junho de 2011

Sementeira

Abri as mãos
Para largar as sementes
Em terra lavrada
Vieram os lobos
Eu fiquei sem nada

Lancei-as de novo
Lá longe no monte
As águias voaram
Do cimo da ponte
Eu fiquei sem nada

Voltei a lançá-las
No cimo do outeiro
Os tordos chegaram
Porque era janeiro
Eu fiquei sem nada

Sem nada nos bolsos
para semear
Rezei às estrelas
Os tordos chegaram
Os lobos vieram
As águias voaram
Para me abençoar


sexta-feira, 24 de junho de 2011

Espada de mel

Corre atrás de mim,
Borboleta de luz
Por este areal imenso
Onde me desfaço em lembranças verdes

Corre atrás de mim,
Concha de sol
Entra nesta praia nua
Por caminhos ausentes

Dá-me o teu riso macio,
Máscara de sal,
E solta-o contra mim
no cume dos montes
Onde o céu é mar

Livra-te de mim
Com a tua luz alada
O teu sol rasteiro
O teu sal vadio

E lança-me
Contra uma espada de mel
Onde o trigo é verde
E cresce nas pedras

Ficções

Antes que o mar  viesse
Os teus braços voltaram-se contra o vento
E o céu incendiou-se à janela

Antes que o rio me cercasse
Os espelhos quebraram-se
E os pedaços de vidro acenderam fogueiras

Antes que a lua me beijasse
Veio a noite com os seus lençóis
E o frio derreteu-se em chamas

Antes, porém, que tudo começasse
Acenderam-se os focos
E sobre o palco arderam mil sombras

Quotidiano

Cheguei ao patamar
Abri a porta do elevador
Achei um caracol
No meu caminho
Como são horríveis os caracóis - pensei

Sem caracóis, golfinhos
Nos meus caminhos
Sem abelhas, formigas
Nas minhas cantigas
Sem moscas e ostras
Às minhas costas
Depressa veria
Da minha janela
Correr do Sul
Um rio de rosas
De jasmins e canela
E assim eu seria
Feliz certamente
De noite e de dia

No frigorífico
Bem frios gostosos
Escargots à la crème

Como seria triste
A vida sem escargots - pensei

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Se eu fosse...

Fosse eu o mar
E beijar-te-ia os longos cabelos
Com carícias de espuma.

Fosse eu uma flor
E perfurmar-te-ia os ombros
Com pétalas de vento.

Fosse eu um rio
E levar-te-ia,
Minha canoa de estrelas.

Fosse eu uma paisagem
E dar-te-ia a ver mares, ventos e estrelas
para com elas te enganar.

domingo, 19 de junho de 2011

Clássicos da literatura fora dos manuais escolares - Sociedade - Sol

Clássicos da literatura fora dos manuais escolares - Sociedade - Sol

Os clássicos nos manuais de Língua Portuguesa

Vem muito a propósito este texto publicado no Sol. O manual Pretextos 5, de que sou autor, é talvez o que apresenta aos nossos alunos do 5º ano de escolaridade o maior leque de opções "leitoras", privilegiando a qualidade dos autores e dos textos. Assim, ao lado de Alice Vieira, António Mota ou Luísa Ducla Soares, encontramos Guerra Junqueiro, Miguel Torga, Jaime Cortesão, João de Deus, Alves Redol, Aquilino Ribeiro...

Poema que escrevi quando tinha 16 anos

Está tudo à venda no bote santo
  meninas, lagostas, cremes
    lá onde o mar é ausente
      onde o caos está misturado
        com molho de tomate
          por favor não matem a listura
            a alma está no estaleiro
              dura dura dura
                como se fora um quarto de arrumos
                  fora com os arrufos arrombos
                    biombos hediondos
                      lanchetes toilettes marionettes
                      se algum dia tivesses imaginado
                    o mistério cru e duro das palavras...
                  a distância tão nobre
                tão quente e tão fria
              desta planície por demais
            por demais e nunca viajada
          já não preciso de misturar as palavras
            elas estão aqui
              perdidas e semeadas
                em botão ou em flor
                  mas sempre
                    amarradas
                      elas são a consciência do que sou
                        presente ou caminhante

                        Para onde vou?
                     

Poema que escrevi quando tinha 10 anos

A vida é nada
Invejada
Destruída
Pelo ódio a vida

A vida está
Numa cadeira de baloiço

Para cá
E para lá
Eu oiço
O ranger dela
À beira
Da janela

Do baloiço
Eu oiço
O movimento
Do vento
À beira da cadeira