- Deve ser por ali - sugeriu o Henri, apontando para um carreiro atravessado por enormes rodados de tractor.
A noite estava escura. Àquela hora, os outros já deviam ir longe, em direcção ao centro da pacata aldeia de Pont-l’Abbé, em Plobannalec-Lesconil, na Bretanha. Ninguém o queria confessar, no entanto uma ideia preocupava-os. Manu, que caminhava, um pouco à frente, conduzida por Marie, sentou-se num monte de sargaço e exclamou:
- Estamos perdidos!
Silêncio. Apenas um ribeiro continuava a sua lengalenga imperturbável sob um céu sombrio e mal-humorado. Arche, o simpático pastor alemão de Manu e Anne, ergueu uma orelha e deteve-se subitamente diante de um dólmen. Os pequenos valdevinos, habituados que estavam já à sagacidade do animal, entreolharam-se como que a inquirir:
- O que será que ele descobriu?
- Vamos embora! - incitou o Legros, conduzindo os companheiros para debaixo de outro dólmen que se encontrava perto.
Seria uma toutinegra ou um corvo-marinho ou um alcatraz ?
- Rrrrrrr! Rrrrrrr! - fez o Arche, suavemente.
No seu nicho, protegidos pela escuridão, os pequenos acotovelavam-se. A Anne fez um sinal ao Jojo, que se encontrava a seu lado.
- Ai! Parva!
O Arche começou a ladrar, alongando o pescoço em direcção a um cruzeiro. O inimigo andava bem próximo e rondava as cinco crianças. Marie estava ainda mais assustada do que todos, embrulhada no seu corpete vermelho e dourado.
- Auuu! Auuu! Auuu!
O Arche aquietou-se quando uma grossa gota de chuva se derramou no meio do arco dos seus olhos bem abertos. O que fazer? Estavam no coração do campo. Não tinham lanternas nem impermeáveis. O centro da cidade parecia estar a quilómetros de distância. A tempestade ameaçava despedaçar tudo ao redor.
Ouviram detonar o primeiro trovão, precedido de um relâmpago que iluminou os campos. Manu abriu bem os olhos: alguma coisa em frente chamava a sua atenção. Não sabia dizer o quê, pois o céu parecia desfazer-se pelas costuras. Além disso, com o negrume, as distâncias tornam-se relativas e aquilo que viu tanto poderia estar debaixo do seu nariz como a léguas dali.
- Havia alguém lá ao fundo – murmurou ela, encostando-se ao Henri.
- Não digas que era um fantasma - troçou o Henri, puxando o gorro até às orelhas.
- Bah! Não sejas idiota! Se não queres acreditar, não acredites.
Henri virou-lhe as costas. Estava assustado, mas não queria mostrar que tinha medo. Além disso, começava a tiritar, por causa dos pés encharcados.
Arche encostou-se a um canto, enrolado na Marie, que se apertava de medo e suspirava, escondendo os olhos com a palma das mãos. A tempestade estava apenas a começar. Anne, que se apoiava em Jojo, segredou-lhe ao ouvido:
- Eu vi alguém quando relampejou.
- Tens a certeza?
- Tenho. Juro.
- Quem era?
- Não sei. Parecia bem perto, ali, junto àquela árvore.
- Vamos esperar por outro relâmpago.
- Não tens medo dos relâmpagos?! – estranhou o Jojo.
- Eu não. E tu?
- Eu também não – respondeu ele.
- Estou calma, vês? - disse corajosamente a rapariga, enquanto apertava ainda mais o braço do companheiro. - Parecia um tecido branco movendo-se para cá e para lá – explicou ela, parecendo controlar-se muito bem:
- Fica aqui – ordenou o rapaz, afastando-se dela. E dirigindo-se aos outros colegas, pediu-lhes: - Esperem! Já volto.
As crianças viram-no saltar o ribeiro e desaparecer atrás de um calvário. O Jojo era um elemento corajoso e não perdia nunca uma boa aventura. Subitamente, um novo relâmpago iluminou o céu, electrizando a superfície quase plana de Pont-l’Abbé. Agora ninguém podia negar: todos tinham visto alguém mover-se na escuridão. O Jojo regressou excitado.
- Uf! - Suspirou.
Tinha andado alguns metros e arriscara desencontrar-se dos outros.
- Vejam só o que achei!
O aventureiro mostrou um livro enlameado e parcialmente destruído. Na sua capa lia-se o seguinte:
Livro de Horas
Segundo o Rito Monástico
- Encontrei-o no riacho, enliçado nas ervas.
Entreolharam-se, esquecendo o frio e o perigo. O que viam não fazia sentido. Dentro do livro, encontrava-se um tecido bordado a fio lilás, no centro do qual se lia a palavra Pax, marcando talvez um texto em verso.
Manu guardou o objecto junto ao corpo.
- Vimos um vulto escapando-se por aquele terreno agrícola - recordou, falando para o amigo.
- Bem te dizia, Jojo - atalhou Anne. - Não o viste?
- Não - respondeu o outro. – Alto! Quando me aproximei, senti um chapejar repentino. Quase me assustou.
- Quase te assustou? - zombou Henri. - Aposto que estavas com muito medo!
- Ora aposta.
- Lembras-te de onde é que vinha esse ruído?
- Claro. Vinha dali - disse, assinalando um ponto que se situava entre dois menires, junto a uma vedação.
- Temos de ir lá ver - sugeriu Robert.
- Nem pensar?! - exclamou a Anne. - Nem te atrevas a procurar mais complicações!
- O Robert tem razão, Anne - interpôs o Jojo. – Não podemos deixar escapar o mistério.
- Eu estou de acordo com o Robert – disse o Henri, que, apesar de estar totalmente encharcado numa roupa de Verão, não virava as costas à aventura.
Seguiram por um caminho estreito. Um pouco adiante, o caminho bifurcava. Não escolheram nem a direita nem a esquerda, mas decidiram saltar uma vala e continuar por um baldio.
Um novo relâmpago abriu uma fenda luminosa no céu, mostrando, por segundos, uma paisagem ao mesmo tempo magnífica e desoladora, e todos se encolheram.
Trrrruuuuoom!
Anne exclamou:
- Vi um albergue lá ao fundo!
Mas não tiveram tempo de se intimidar, pois um novo estrondo ecoou ali perto. Não havia dúvida: se caminhassem sem parar, ainda podiam encontrar um abrigo para passarem, até que o vendaval fosse embora.
- Vamos – incitou o Robert, entusiasmado com a perspectiva de uma noite passada junto às chama de uma lareira confortável. Foi Manu, que ia à frente, cortando caminho através de um pomar, quem deitou mão a um segundo achado estranho: um véu cinzento-claro pousado numa pedra, a duas centenas de metros de uma casa, que parecia pertencer a uma ordem monástica.
- De quem será?
Ouviu-se um ciciar silencioso que o vendaval logo fez desaparecer. Alguém procurava desenredar-se de algo, mas quem e o quê? Os pequenos valdevinos estavam aterrorizados, porém o perigo chamava-os.
- ...orro...má ...eonor!
- Fi...firme...Isa...ora!
Claro! O edifício sombrio que a Anne vira devia pertencer a uma ordem religiosa.
- Aju...qui!
- O que está a fazer tão ...tada da casa com este tem...ral?
- ...pois eu conto-lhe, irmã. ...inda bem que veio.
- Há tão pouco tem... ...nosco! Nunca ...preendi estas suas incursões noctur.... Vá, segure-se com for....
- Viu o pa... Pierre?
- Foi ele quem me ... que a ... tinha saído.
- A madre superiora sabe de alguma coisa?
- Não lhe ...quei na... O senhor padre achou ...ferível.
- ...gada, irmã.
Os pequenos valdevinos assistiram estupefactos a esta conversa sussurrada. A irmã Leonor ergueu a outra do chão. Todos repararam que esta não trazia o véu sobre a cabeça. O hábito molhado sobre o corpo estreito, os longos cabelos desarranjados correndo pela face tinham algo de sensual que não passou despercebido ao rapaz mais velho do grupo.
Logo que se afastaram, os garotos foram examinar o local. Foi Anne quem encontrou, ondeando sobre um tronco caído, uma parte de um rosário.
- Não estou a gostar nada! - queixou-se, mostrando o estranho objecto.
- Nem eu - disse Henri, mostrando um ar grave.
- Que significado tem tudo isto?
- Provavelmente, a irmã não se apercebeu de que foi deixando para trás...
- Achas? - interrompeu o Jojo, deixando o seu longo silêncio. - Um véu de freira não se desprenderia com facilidade, e mesmo que se desprendesse, tendo em conta o mau tempo...
- Ainda assim. A irmã que estava caída não tinha véu.
- Eu vi muito bem – reforçou Manu.
- Lembras-te de quando a outra a ergueu? Levou as mãos ao hábito, como se procurasse alguma coisa.
- Não, não reparei.
- Mas reparei eu - insistiu Henri.
- E eu também - disse o Robert, prontamente.
- De repente, olhou para este toro e só então foi embora.
- Estranho! Uma freira nunca largaria assim um objecto de devoção.
- Estás a querer dizer o quê?
- Isso mesmo: que estamos perante um caso bem estranho.
- O que não significa que aquela religiosa faça parte de uma quadrilha - protestou o Legros.
Ao ouvir esta última palavra, Arche, que se encontrava a poucos metros, muito triste, fez um rosnido ameaçador que chamou a atenção dos pequenos. Marie, por sua vez, pulou para um ramo de uma bengaleira e pareceu apurar o ouvido, com um trejeito cómico.
- Uh! Uh! Uh! Ah! Ah! Ah! - fez, baixinho, coçando os flancos.
- Não te preocupes, Arche! - tranquilizou a dona. - Nem tu, Marie.
Estavam a abandonar o local quando o Legros, que ficara para trás, soltou um grito.
- Encontrei algumas contas do rosário.
Observaram um conjunto de pequenas esferas dispostas em círculo, próximas de um molho de urzes desalinhadas. Não as recolheram; apenas conservaram, junto do véu e do livro de horas, o fio que haviam encontrado poucos momentos antes. Se pudessem, teriam fotografado aquilo. Mas não tinham máquina fotográfica!
As duas mulheres, entretanto, já deveriam ter chegado ao convento, por uma vereda que se abria por entre campos vedados seguindo um traçado caprichoso. A chuva era agora escassa e fria. Quando retomaram a marcha, as crianças tremiam.
- A casa conventual tem agora uma luz acesa - notou o Legros, indicando um ponto distinto no escuro.
- Vamos para lá – disse a Manu, imediatamente.
- Parece enorme a casa.
- Só espero é que nos abram a porta... a esta hora...
- E que nos deixem tomar um banho quente - acrescentou um deles.
- Para mim, um prato de cereais e um cobertor perto da lareira já eram suficientes.
- Atchim!
Anne, que ia, há algum tempo, atrás, sem dizer nada, estava cansada e tremia. No entanto, ninguém reparou nela.
- E para o Arche e para a Marie?
- Ora, para a Marie, eu diria uma banana saborosa, mas para o Arche, estava bem um osso suculento, não achas? - O pastor alemão, ao ouvir falar no seu prato preferido, sacudiu a cauda com tal entusiasmo que deixou os amigos ainda mais molhados.
- Béu! Béu!
- Não fiques tão excitado, Arche - repreendeu a sua amiga. - Hoje vais ter de te contentar com pouco, vais ver.
- Pode ser que não, Manu - retorquiu o Jojo, com um brilho de esperança nas palavras. - Estamos quase a chegar. Talvez os donos da quinta estejam à nossa espera e queiram oferecer-nos uma estadia agradável.
- Atchim!
Desta vez, o respingo de Anne foi tão estrondoso que não houve quem não se apercebesse. A pequena tremia de frio e a sua voz extinguia-se. O Jojo aconchegou-a amavelmente a si e ofereceu-lhe o seu casaco.
- Estamos a chegar – disse o Robert.
Acabavam de transpor um pesado portão de ferro que rangera ao rodar nos gonzos, alvoroçando algumas aves nocturnas. Aproximaram-se da fenda por onde, ainda há pouco, se escapava uma luz trémula, mas o velho edifício parecia mergulhado num profundo torpor. O vento fustigava umas medas desgrenhadas de palha e desramava as árvores.
Quando o temporal abrandou, puderam enfim repousar, aconchegados uns contra os outros, num casebre que se achava próximo da estrada, escondido entre a vegetação. Como não tinham uma lareira que pudessem acender, ainda tremeram algum tempo, até que adormeceram.
Sem comentários:
Enviar um comentário