segunda-feira, 25 de outubro de 2010

O Retrato de Apolo está a ser pintado, mas enquanto isso o escritor dorme...

O retrato de Apolo começou a ser pintado imediatamente, porque o mestre mostrava ter muita pressa e ansiedade. Porém algo se terá passado, pois nenhum dos dois saiu à rua durante semanas. Onde estariam o homem e o seu modelo, se quando a aguadeira passou em frente e, vendo a cortina a esvoaçar ininterruptamente, até se despedaçar dois andares abaixo, subiu com o canastro e a bilha transbordante, degrau a degrau, e, batendo à porta, viu que estava aberta e, vendo que estava aberta, entrou e não os viu? Depois, poisando rodilha, canastra e bilha, espreitou em todos os aposentos, já alijada. Onde estariam? Ninguém os vira sair, porém não estavam. Se entrassem, encontrariam a aguadeira sentada sobre o estrado onde antes havia sempre telas cheias de cores. Mas que vazio este, o de não existir nenhum pintor naquela casa impregnada de acrílicos e de ceras! Cansada de esperar, a mulher foi embora e não regressou, mas foi avisando que aquilo era obra de mil diabos e que a casa estava ensombrada, se estava...

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O Retrato de Apolo (Continuação do capítulo 3)

O rapaz, que não viu o pintor, quando entrou foi de imediato atraído por um foco de luz aureolando um esboço que se desfazia em cores no pano branco. Era o retrato de um jovem cujo cabelo, precipitando-se sobre o colo, parecia uma torrente de ouros de um vulcão em fúria. Dir-se-ia que o artista se apaixonara pelo seu modelo, tal fora a generosidade com que lhe pintara os olhos de um azul-porcelana, onde se via o céu e o mar sobre ele. Era realmente um homem lindo, aquele, e possuidor de encantos divinos. Qualquer artista o quereria, porque, na natureza, nunca se vira nada assim. Por isso, o que o rapaz sentiu foi ciúmes. Muitos ciúmes.
O retrato, porém, estava inacabado. Faltava-lhe o traço do génio, a fúria do homem. E o pintor não estava ali, apesar de a porta estar aberta e a chama queimar na lareira e leves traços de tinta fazerem supor que estava perto. Onde estaria? Porque saíra, agora que estava tão próximo do alto? O rapaz afastou uma cadeira, que gemeu sobre as suas quatro pernas empenadas, e foi à procura do homem. Talvez este  se encontrasse na câmara contígua, donde emanava um cheiro fresco a hortelã. A câmara tinha cama, cómoda, bacio. Havia, na verdade, um ramo de hortelã sobre a cómoda, que desinfectava o quarto e fazia com que este tivesse um ar de lavado. Em cima do móvel, encontrou ainda vários esboços. Todos da mesma pessoa. Uns de corpo. Outros de corpo e meio. Uns ainda de perfil; outros de frente. Em todos, o mesmo ar de mistério e de sedução. Aquele rapaz começava a interessar-lhe mais do que o próprio pintor.
Quando se virou, viu-o.
- Bom dia.
O mestre admirava-o à porta da câmara e parecia feliz por vê-lo.
- Bom dia.
Cheirava a vinho. Tinha os punhos da camisa levantados. Os olhos abertos há vários dias. Um ar de puro desleixo.
- Quem é este? – O rapaz colocava os esboços, um a um, sobre a cama.
- Gosta?
- Hmmm! Não me parece mal.
- Este é você!
- Eu? – disse ele, como se tivesse sido uma surpresa.
- Sim. 
- Na verdade, não me julgava assim.
Um dia, vira-se no rio, ondeando, mas perdera-se ao ver as sombras das árvores sobre a película da água e depois, quando se quis de novo ver, a chuva que começou a cair roubou-lhe o retrato e levou-o para onde nunca mais o conseguiu alcançar. Por isso não se conhecia. Passaria a conhecer-se através dos olhos do mestre, a quem dava o seu corpo, sem lhe dar a alma.
- Quero-o.
- Aqui me tem. Durante o Inverno. Partirei com a Primavera!

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O Retrato de Apolo (Início do capítulo 3)


A porta estava aberta, quando chegou; a cancela também; batiam-lhe um ventinho bom que descia de uma clarabóia. O jovem vinha despenteado, não muito, mas, para ficar ainda mais belo, passou os cabelos finos nos dedos, a fazer de pente, mirando-se a um espelho que trazia no bolsilho das calças. Depois, considerando que a sua figura aprazaria ao mestre, que imaginava encontrar sentado numa trave, vergado sobre uma tela pintalgada de cores e de formas, de costas contra a claridade, guardou o espelho no mesmo bolso. Aprumou as calças, sacudiu o pó das alparcas, ajeitou as fivelas do calçado e constatou:
- Não pus roupas novas, não. Porém, cheiro a lavanda e tenho o aspecto de um príncipe. Hoje, o mestre receber-me-á e o meu corpo encherá de brilho o tecido que me espera com sede e fome. Será difícil traduzir em cores e formas este brilho que tenho. A obra será sempre incompleta, imperfeita, e o pintor conformar-se-á à sua condição triste de artista menor.
Entrou. A porta continuou aberta e a bater na cancela. A um canto, junto à lareira, que, apesar do sol exterior, mantinha acesa a sua chama, uma galinha pedrês aconchegava os seus filhotes sob as asas e debicava-os um a um com ternuras de mãe. O pintor, que não viu quem entrava, entaramelava monossílabos, enquanto desfazia cores no godé e  borrava o o seu uniforme de trabalho. 

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O Retrato de Apolo (Capítulo 2)


O jovem teria tentado uma nova corrida atrás do mestre, se as condições não tivessem sido adversas. Mas choveu no pequeno enclave de casebres, cortiços e colmeias onde ele morava e, da nesga de janela que lhe iluminava os chouriços pendurados por cima do forno, só lhe restava admirar o Sol pousado na cidade, cantando nos riachos e queimando os fardos de palha enfileirados pelo monte acima.
A espera foi fastidiosa, já que, isolado do mundo, sem se atrever a pôr pé sobre a lama, o rapaz não tinha alternativas, além de traçar desenhos sobre vegetais secos de folha larga, que laboriosamente estendia e cortava e enchia de riscos, para de seguida amontoar a canto.
Recebeu a visita de um médico que passava uma vez de seis em seis meses no enclave e que, constatando que tudo estava bem, se despediu sem delongas, prometendo nova visita na Primavera.
Uma ideia, porém, o obcecava e, se não fossem os sintomas de gripe, breve teria saído de casa, subido a serra, calcorreado monte atrás de monte, atrás do cheiro bom do acrílico e dos dissolventes que o pintor manuseava com mestria e constância.
Naquele dia, abriu a porta que dava para o largo e a cancela enferrujada que calçava a porta cedeu e despedaçou-se. O Sol brilhava e o rapaz interpretou essa pequena conjugação de acontecimentos como um presságio de bom tempo, mas, olhando para o longe, vendo que sobre o horizonte as nuvens se contorciam em tons de cinzento e negro, amargas como a noite, sentiu um tremor que o atirou para a cama, onde permaneceu por mais cinco dias e cinco noites.
Durante esse tempo, delirou. Visitou Rembrandt, a quem se apresentou como senhor de uma beleza inigualável, que o pintor admirou e eternizou em breves segundos. O encanto dos deuses enche o coração dos homens, mas só os artistas vislumbram o perfume fugaz que dele se solta. E esse perfume traduziu-o Rembrandt em azuis, verdes e amarelos, como se fossem sóis.
Numa das suas alucinações, viu o jovem que o artista deixava de pintar, para estender o corpo cansado sobre um estrado preto. Acordou-o.
Sentiu-se subitamente melhor, o jovem, e, esfregando os olhos ensonados, esqueceu o sonho e procurou uma malga onde entornar o café e fazer migas. A lareira estava fria e encarquilhada, como as pernas de uma mulher velha. O que lhe valeram foram os chouriços.
Novamente de pé, foi lavar-se. Aquelas águas levaram-no até uma cascata, onde normalmente se refrescava. Era um troço de rio onde ia muitas vezes refrescar-se, mas também onde se sentia sempre como todos os poucos habitantes do lugarejo. Dizia o vizinho da frente, um pastor que nunca saíra do lugar a não ser para negociar as suas ovelhas e que passava o dia a falar sozinho, sempre que o rapaz regressava escorrendo vulgaridade, que o jovem seria um pastor como ele. As ovelhas conheciam-no. O cão também.
E ensinou-o a contar, no feminino. Uma. Duas. Três... Vinte... Vinte e uma... Vinte e duas...
Sempre que o via a passear beleza, o pastor, que afirmava nunca ter sido belo, mas que ainda assim casara e tivera uma cesta de filhos, dizia que para um pastor ser pastor o importante mesmo era ter boa memória, para conhecer as suas rezes pelo nome, ter a confiança do cão e o medo das meninas. Nesses momentos, o jovem, vendo que era capaz de conduzir o rebanho pelos cabeços e permanecer longas horas isolado no monte, alimentando-se de uvas amargas e de frutos silvestres, considerava que o homem tinha a sua razão. Fazia, pois, votos de fé na sua condição de aldeão e prometia fidelidade à mãe natureza, aos ventos, ao frio, à geada e à neve.
- Perdeu-se uma ovelha no cimo do monte – disse o jovem. O velho contou-as. Eram vinte e nove cabeças. Uma delas tinha parido na semana anterior. Estava de resguardo, alimentando as crias. Era a que faltava, mas o homem não lhe tinha relatado esse detalhe, ou porque estivesse senil ou porque esperasse que o discípulo reparasse. Os animais tinham andado desassossegados, explicava o jovem. – Definitivamente, abandonarei o pastoreio. Deixo-lhe o rebanho.
Chegado a casa, o rapaz abriu a portada da janela e viu que, como passaram quase duas semanas, já não tinha chouriços para comer. Depois, revirando as roupas, percebeu que cheirava mal. Foi então que decidiu tomar banho. O caminho que normalmente seguia em direcção ao rio estava intransitável. Desviou por um carreiro que serpenteava pela encosta e, em vez de descer, subia a um lugar onde o rio era mais transparente e cristalino. Despiu-se. Ensaboou-se. Observou-se na flor da água. Admirou-se. Os pés pisavam uns seixos rolados que lhe fizeram sentir a sua real humanidade. O Sol coroava-o com os seus doirados e ele sentiu-se um rei.
Homem e rei. Um deus analfabeto. A sua invejável beleza dar-lhe-ia de comer e em vez de chouriços, encheria a boca de caviar e de toda a sorte de iguarias. O pincel do artista dar-lhe-ia as vestes que, com o pastoreio, não seria capaz nunca de comprar. Voltaria a casa do mestre.

domingo, 3 de outubro de 2010

O Retrato de Apolo (Capítulo 1)

- Sente-se ao lado do biombo e espere.
O rapaz procurou a cadeira de estilo Queen Anne que o pintor apontava, através do espelho. Descera a cidade,  desviara por carreiros, atravessara pontes, desaguara em vielas envergonhadas, à procura da margem pintalgada de flores onde, ouvira dizer, os mais extraordinários pintores desenhavam com traços primitivos corpos de homens e mulheres, sem deformidades. Escondeu a folha amarela onde desenhara em caracteres pueris as indicações sobre aquela morada e como lá chegar. Não queria que o artista imaginasse sequer as condições da travessia que fizera nem a distância que tivera de galgar. Não queria, enfim, expor o seu segredo, pois, embora tivesse a convicção de que seria talvez compreendido se tomasse a iniciativa de se expor, isso iria consumir-lhe tempo, que era o que mais lhe faltava, apesar de ser  jovem.
A espera foi, contudo, inquietante, tendo parecido ao rapaz, a certo momento, que o homem se esquecera dele, enquanto compunha formas sobre uma tela suja, que ora pareciam ser as vagas frenéticas de um oceano ora mais se assemelhavam ao furor desalmado de um vulcão.
No exterior, a cidade adormecera há umas boas duas horas. As seges, porém, ainda desciam e subiam o caminho estreito que o rapaz tomara quando saíra da ponte, levadas por cavalos indolentes, embora o trepidar metálico das carroçarias nas pedras da rua fosse cada vez mais mole. Esperaria quanto tempo mais? Nos cinco minutos últimos, tivera já duas tonturas; estava com enxaquecas e as pernas doíam-lhe, por estarem recurvadas sob a cadeira, imóveis, uma sobre a outra, apontando no chão, e se não fosse a esperança com que acordara naquele dia de mudar a sua vida para sempre, já teria desistido. 
O rapaz viu o homem limpar o pincel a um jornal húmido e pensou que este iria por fim terminar o trabalho, até porque a tela onde lançava, com jactos de furiosa inspiração, em cores ocas, as formas que arrancava da sua alma, tinha o aspecto de acabada beleza. Não via ali animal nem flor, embora o motivo principal daquela peça de arte tivesse um pouco de flor e de animal e se assemelhasse a um lacrau em cima de uma flor de lótus. De súbito, sentiu-se confuso. As figuras desenhadas no tecido, depois de secas e com um aspecto já de acabado, enrodilhavam-se umas nas outras e desprendiam-se da base que as enquadrava como um cordão de fumo e não havia nelas nenhuma marca humana nem divina. Só então, possuído de uma invulgar incerteza, ousou olhar em volta. No chão e em cima de uma cómoda derreada, havia mais de uma dezena de telas, todas aparentemente recentes, a julgar pelo cuidado com que estavam enfileiradas, e até havia algumas a secar no espaldar de cadeiras e na cabeceira do leito . Nuns, agitavam-se seres suspensos sobre patíbulos; noutros, moviam-se gigantes de patas minúsculas, em equilíbrio ébrio sobre filamentos dourados que dois títeres maquiavélicos estiravam com as pontas dos dedos. Só numa pintura viu ele motivo de algum regozijo. Era a representação da Virgem Maria grávida, com ar de dores de parto. E, mesmo assim, as cores daquela peça não se enquadravam nas tendências artísticas da mão que criara tudo o resto, resultando do conjunto alguma desarmonia que o jovem não saberia explicar bem.
Dar-se-ia, pois, o caso de se ter enganado na porta e de ter entrado na oficina errada, embora tivesse a certeza de que estava na calhe que tanto procurara. Era uma via que partia da marginal e que abraçava a cidade como se a sufocasse, tão estreita e enviesada era. Nos seus passeios, só nos primeiros cem ou cento e cinquenta passos, havia uma tal variedade de flores exóticas que diria estar no paraíso de Adão. Não havia correnteza igual, nem nessa cidade nem nesse país, embora o jovem fosse ainda jovem e não pudesse dizer, se quisesse ser verdadeiro, que alguma vez tinha posto pé fora da comarca.
Confinado a um canto, atrás do biombo, junto à porta semicerrada, o rapaz sentiu que o pintor o olhava e esperou que este guardasse os pincéis e as paletas, os acrílicos e os dissolventes, os trapos e os jornais e que depois viesse finalmente falar consigo. Não foram defraudadas as suas esperanças. E ao fim de algum tempo, depois de esfregar um farrapo nas mãos negras que lançou sobre a flor de lótus, onde o escorpião adorava como se estivesse num altar, o artista disse:
- Já o observava há mais de meia hora e perguntava-me o que está um rapaz deste porte a fazer na oficina de um artista tão vil.
O jovem encolheu-se na jaqueta e enfiou as mãos nos bolsos das calças. O luar abandonara as ruas e o rio e transferira-se inteiro para o janelo do cubículo onde os dois se achavam, lançando sobre o rapaz uma cor de jade que transformava os seus belos anéis do cabelo em correntes de inacessível beleza. O artista não terá ficado indiferente face a tal mudança e aproximou-se para tocar no fino ouro dos seus encantos apolíneos, por mero desinteresse profissional, procurando lugarejos onde tal rigor pudesse ser divino. Constatou, porém, o homem que não havia, naquele ser superior, nada que lembrasse a sua real humanidade.
- Tudo em si é grande demais, perfeito demais, sublime demais – exclamou, como se a sublimidade, a perfeição e a grandeza pudessem alguma vez ser menos do que grandes, perfeitas e sublimes.
O rapaz sentiu então que algo nele era incompleto. Nunca pensara  nisso. Mas tantas horas e horas a correr montanhas, a bracejar nos rios, a lançar pedras e paus tinham-no, quem sabe?, transformado num ser perfeitamente imperfeito. Em algum momento, no seu longo percurso de auto-superação, deveria ter reduzido o seu esforço, para ser mais homem e menos deus, menos fera e mais animal; mas os prodígios tão nesciamente alcançados fascinavam-no e, achando-se sábio, não parou nunca nem sequer para se ver. Bastava-lhe a contemplação interior, quando, diariamente, esgotadas as forças, caindo sobre o leito, a cabeça se esvaziava e se enchia o coração. 
- Os seus olhos falam-me de viagens...
O rapaz lera um Dante; devorara um Séneca; comparara um Rembrandt com um Da Vinci.  Para ele, a alma imortalizava-se nas mãos dos grandes mestres, trabalhada, amadurecida, decantada, como obra de arte, e crescia em outras obras, sob a mesma chama, que era a inspiração. Decidira, pois, ser Apolo, num tecido branco.
O artista fechou o janelo, pois a humidade da noite, em que a cidade adormecia, caía sobre as paisagens e os seres pintados nas telas e alterava subitamente os seus verdes. No dia seguinte, voltaria a afinar as cores e a dar brilhos onde estes se impunham. Agora, dizia, estava esfomeado e os xelins que resgatou aos fundilhos do avental dariam para uma sopa e uma caneca de vinho. Depois, falariam.
O jovem acenou com a cabeça, como faz um bom discípulo. Com o janelo já fechado, iluminado pelo pavio aceso de uma candeia, o seu rosto afundava-se em escuridão. Não supusera que tivesse sido tão difícil chegar ali e que, tendo encontrado, finalmente, o seu mestre, este lhe falasse de vinho e sopa. Imaginava, aliás, os artistas aureolados de cores mágicas, de pé em pedestais,  artilhados com os sentimentos mais nobres. Pois bem. Os artistas comem e bebem.

sábado, 2 de outubro de 2010

A Rã Rabina

(Uma floresta, um lago ao centro, mais adiante, um caminho sinuoso, um pouco além a casa da feiticeira boa. À direita, na cena, a Feiticeira boa, longos cabelos grisalhos, vestuário branco e largo, bonacheirona.)

FEITICEIRA BOA (Cantando e dançando.)

A Lagosta diz que tem sapatinhos de veludo

A Lagosta diz que tem sapatinhos de veludo

É mentira da Lagosta, ela tem é os pés cascudos

Ah! Ah! Ah! Eh! Eh! Eh!

Ela tem é os pés cascudos.

(Vendo que não está só.) Ah! Não pensei que tivessem vindo. Logo hoje que estou tão atarefada. Aproveitei que a minha Lagosta foi passear pela floresta, para pôr a conversa em dia com a comadre raposa e com o compadre sapo. Mas que cabeça a minha! Uma senhora educada tem sempre de dizer: bom dia! (Gesto prolongado.) Vieram todos? Estão bem dispostos? (Espera pela resposta dos meninos.) Ah! (Caindo em si, de novo.) Que tonta que sou. Estou para aqui a falar e ainda nem sequer me apresentei. Eu sou Luana, a feiticeira da Lua.

FEITICEIRA MÁ (À esquerda, cabelo curto e desgrenhado, vestuário alaranjado.)

Olá, meninos e meninas! Eu sou a filha da feiticeira Luana e chamo-me Lagosta, porque vivo numa casa muito grande, junto ao lago. (De frente, para a feiticeira Luana.) Que fazes aqui, feiticeira Luana?

LUANA (Surpreendida.)

Eu é que pergunto: o que é que fazes aqui, feiticeira Lagosta? Não era para andares pela floresta, a piquenicar, a bebericar e a enfeitiçar?

LAGOSTA

Era, era, mãezinha, mas decidi enfeitiçar, bebericar e piquenicar aqui ao pé da tua casa. E tu, que estás a fazer cá fora?

LUANA (Atrapalhada.)

Ah! Estava a passear pelos campos e encontrei estes meninos.

LAGOSTA (Vendo os meninos.)

Eia! Tantos meninos! Um, dois, três... (Conta os meninos.) Sabiam que eu gosto muito dos meninos e das meninas? Para vos provar que é verdade, vou contar-vos uma história muito bonita. Querem?

LUANA

Não, não, não! Não penses que vais contar uma das tuas histórias tão feias. (Dirige-se a um menino.) Olá! Eu sou Luana, e tu, como te chamas?

MENINO (Diz como se chama.)

LAGOSTA

Diz aí, ..., aos teus amiguinhos que não façam caso do que esta senhora está a dizer.

LUANA (Perdendo a paciência.)

Bora, desanda, butes, põe-te longe, feiticeira má. A não ser que...

LAGOSTA

A não ser que o quê?

LUANA

A não ser que queiras levar uma lição.

LAGOSTA

Uma lição? Ah! Ah! Ah! Ah!

LUANA

Podes contar o que quiseres, que estes meninos não vão acreditar numa única palavra tua! Queres experimentar!

LAGOSTA

E que é que eu ganho com isso?

LUANA

Nada.

LAGOSTA

Não faz mal.

(Luana sai de cena. Lagosta dá dois passos, roda o vestido, retoca o penteado e aproxima-se dos meninos, impaciente.)

LAGOSTA (Junto ao público.)

Meninos, já ouviram falar da história do coelho Cocas e da rã Rabina?

MENINOS

Não.

LAGOSTA

Então vou contar. Mas cheguem-se para lá, que eu preciso de espaço. (Espera que os meninos e as meninas se afastem.) Era uma vez... Era uma vez... Era uma vez... Um momento.

(Entra a rã Rabina, que interrompe a Lagosta. Esta afasta-se e a rã Rabina dá pequenos saltos até ao centro da cena e pára para se mirar num charco hipotético.)

RABINA

Charco meu, charco meu, haverá na floresta um animal mais lindo do que eu?

LUANA (Invisível.)

Sim, há. O coelho Cocas.

RABINA (Chorando, desesperada.) Velho charco rabujento! Vou perguntar ao meu espelho. Vais ver que ele me vai dizer que eu sou o animal mais lindo da floresta. (Faz que retira um espelho do bolso e que se mira nele, penteando os seus longos cabelos castanhos.)

RABINA

Espelho meu! Espelho meu! Haverá algum animal na floresta mais belo do que eu?

(Ouve-se um estrondo e Rabina estremece.)

RABINA

O que é isto? (Dirigindo-se aos meninos.) Ouviram alguma coisa?

MENINOS

Não. Sim.

RABINA

Sim ou não! Ouviram ou não ouviram? Bom, vamos lá outra vez! Espelho meu, espelho meu, haverá algum animal na floresta mais lindo do que eu?

(Entra o coelho Cocas, aos saltos pela cena e cantando.)

COELHO

De olhos vermelhos e pêlo branquinho,

aos saltos bem altos, eu sou um coelhinho,

comi uma cenoura com casca e com tudo,

ela era assim tão grande

que eu fiquei um barrigudo.

Aos saltos para a frente, aos saltos para trás,

Eu sou um coelhinho e de tudo sou capaz.

RABINA (Furiosa.)

Seu desmancha-prazeres!

COCAS

És sempre a mesma Rabina! Tu é que és uma desmancha-prazeres. Não vês que eu estava a cantar?

RABINA (Despeitada.)

E eu estava a falar com o meu espelho.

COCAS

E o que é que o espelho te disse?

RABINA

Que sou o animal mais lindo da floresta. Não foi, meninos?

MENINOS (Em coro.)

Não.

COCAS

Deixa lá, Rabina. Os espelhos às vezes também mentem. Não vês a minha barriga? (Exagera a barriga, que não tem.) Quando eu olho ao espelho, nem vejo o meu umbigo. Mas eu sei que tenho umbigo como todos os coelhos.

RABINA (Pensativa.)

Engraçado. Para dizer a verdade, nunca reparei que os coelhos tivessem umbigos. Os coelhos têm... (Acena com as mãos e sugere aos meninos que repitam.) ... mãos... (Faz um gesto exagerado com a cabeça e sugere aos meninos que repitam.)... cabeça (Faz um gesto exagerado com os pés e sugere aos meninos que repitam.)... pés... (Faz um gesto exagerado com as mãos, que apontam para os olhos, e sugere aos meninos que repitam.)... olhos... (Faz um gesto exagerado com as mãos, apontando as orelhas e sugere aos meninos que repitam.)... orelhas...

COCAS (Impaciente.)

Chega, Rabina. Hoje estou muito triste porque a minha barriga cresceu um milímetro e eu engordei uma grama.

RABINA

E eu estou furiosa porque ninguém gosta de mim.

COCAS

Por que é que ninguém gosta de ti?

RABINA

Porque sou o animal mais lindo da floresta. Há quem ache até que sou mais linda do que o leão Estrela, e o leão Estrela até tem uma juba muito linda!

COCAS

Realmente! O leão Estrela é mesmo muito lindo!

RABINA

Ontem, fui à costureira, e encomendei um vestido às listas, mas ela não achou bem.

COCAS

Porquê? Diz.

RABINA

Porque os vestidos às listas já não se usam, ainda para mais a zebra dona Zélia, que sempre usou vestidos às listas, diz-se que mudou de visual e agora só encomenda vestidos às bolinhas.

COCAS

A zebra dona Zélia sempre foi muito antipática, não é?

RABINA

Realmente! Ainda para mais, depois que ficou amiga da girafa Giroflé, não fala com ninguém.

COCAS

Pois não! Por acaso, já tinha reparado. Onde as tenho visto muitas vezes é na esteticista Clotilde, a encherem as peles e a eliminarem as gorduras.

COCAS

Sabes, Rabina, ouvi que há um cavalinho muito bonito que não tem destes problemas. Já ouviste falar do cavalo Cavalão?

RABINA

Já. É aquele que anda no carrossel, não é?

COCAS

É esse mesmo. Ao menos, esse não tem problemas com a barriga. Anda todo o dia numa roda-viva, em cima do carrossel.

RABINA

Pois não, mas dizem que tem uma orelhas de burro e uma cabeça de papel.

COCAS (Desolado.)

Ah! Pobre cavalinho!

RABINA

Para não falar que deve ter a cabeça às voltas, de tanto andar à roda. Além do mais, não sei se já reparaste que afinal não é ele que anda, mas é o carrossel que anda por ele.

COCAS

Vamos cantar a canção do cavalinho, amiga Rabina?

RABINA

Boa ideia. Mas podemos ensinar a canção a estes meninos e depois cantamos juntos.

(Ensaiam a canção com os meninos e depois cantam todos juntos.)

TODOS

Era uma vez um cavalinho

que vivia num lindo carrossel

tinha orelhas de burro

e a cabeça era feita de papel.

A galope... xa-la-la...

sem parar... xa-la-la...

cavalinho nunca sai do seu lugar...

xa-la-la...

(Enquanto cantam, entra a feiticeira má e olha, espantada, para Cocas e Rabina. Interrompe.)

LAGOSTA

O que vocês mereciam era uma valente lagosta!

COCAS

Porquê, feiticeira má?

LAGOSTA

Onde já se viu, estragarem a minha história com cantigas... Vamos, daqui para fora.

LUANA (Entrando.)

Eu bem te dizia, Lagosta! Serviu-te a lição, serviu?

LAGOSTA (Disfarçando.)

Porquê? Os meninos adoraram a minha história, não foi?

(Os meninos não respondem.)

LUANA

Vai-te embora, Lagosta. Perdeste a aposta e recebeste uma grande lição.

(A feiticeira Lagosta sai de cena e os elementos do cenário dançam, juntos, uma canção e assim acaba a história.)

A Feira Popular

Era uma menina muito bonita. Tranças louras, olhos verdes, sorriso de água. Mas parecia-lhe tão frágil que, mesmo estando afastado dela, não desviava o olhar. E então, quando saiu da barraca de tiro ao alvo e deixou de a ver, ficou com tanta pena que correu entre os populares para a procurar em todo o lado.

- Está ali a minha princesa – pensou, logo que voltou a vê-la. – Por pouco a perdia completamente de vista.

Mas depois, ao ver que esta não sorria quase nunca, nem diante do carro das farturas nem no interior do pavilhão do circo, começou a pensar que ela fosse uma boneca articulada com rosto de cera. O desejo de a beliscar começou a crescer no seu coração e imaginou uma forma de se aproximar dela, talvez até de lhe falar. Se estivesse com sorte, a rapariga haveria de lhe sorrir e, no fim, até aceitaria comer algodão doce com ele.

A mulher que a acompanhava dizia-lhe frases ao ouvido e nunca lhe largava a mão.

A certa altura, a menina apontou para um foco de luz, que iluminava um trapezista e lançava sombras sobre a plateia. A mulher, ao lado dela respondeu-lhe com um encolher de ombros e a rapariga permaneceu mais uns momentos estática, diante do homem do trapézio.

- Vamos agora assistir a um triplo salto mortal – disse uma voz poderosa, que ecoou em todo o recinto. A assistência soltou um grito abafado e surdo. Ouviu-se o ribombar dos tambores. A vida do trapezista estava pendurada lá em cima, no alto do trapézio.

O rapaz aproximou-se. Sentou-se atrás da rapariga, ouvindo a sua respiração ofegante e sentindo a sua pele quente.

- Não é uma boneca articulada – pensou. – Muito menos de cera. Tenho de falar com ela.

Quando o trapezista dava o triplo salto mortal, a rapariga virou-se para trás e os seus olhos verdes chocaram com os olhos castanhos do rapaz e os dois desviaram imediatamente o olhar. Ela, indiferente; ele, com vergonha.

- Vamos embora – disse a mulher. – Esta actuação está a deixar-me nervosa.

O rapaz, então teve uma ideia:

- Não saia agora – disse à mulher, pondo-lhe a mão no ombro.

- Tire a sua mão de cima de mim – ordenou-lhe ela, vendo que estava a ser incomodada por um rapaz de pouco mais de nove anos.

- Lá fora está uma coisa que não vai querer ver.

- Vamos – disse de novo a mulher. Só então é que o rapaz viu bem que os cabelos da menina não eram absolutamente louros, mas, conforme lhe incidiam os holofotes do circo, estes ficavam cada vez mais claros, quase brancos. A menina levantou-se. Os seus olhos mostravam umas rugas muito salientes nos cantos e dir-se-ia que ela estava a chorar.

- Por que estás triste? – Perguntou-lhe o rapaz, enternecido.

- Porque quero andar na montanha russa e a minha mãe não autoriza.

- E choras apenas por causa disso?

A rapariga rompeu em lágrimas e a mãe arrastou-a pelo corredor central da plateia, até lá fora. O rapaz seguiu-as e ficou escondido atrás duma banca de gelados, a vê-las. Para disfarçar, comprou um gelado de baunilha e, enquanto contava o troco que o homem lhe dava, viu que a menina comprava também um pau de algodão doce e saltitava, muito feliz, em direcção à montanha russa.

- Há alguma coisa que não bate certo – pensou mais uma vez o rapaz. – Vou ver.

A rapariga parara de chorar e parecia até estar muito contente e ele pensou que se se aproximasse e lhe falasse de novo, ela iria talvez falar com ele de outra forma. Observou-a mais ao perto. Notou-lhe uma tremura no queixo e ele até achou isso bonito. A mãe foi comprar um bilhete para os carrinhos de choque e viu-o de relance.

- Lá está ele – deve ter pensado a menina, zangada, porque correu a ir ter com a mãe. Depois, deve ter-lhe dito que o rapaz estava a persegui-la, porque a mãe olhou em todas as direcções, talvez na esperança de o encontrar entre a multidão.

O gelado derretia-se nas mãos do rapaz.

De repente, a feira popular ficou inexplicavelmente deserta. Apenas a montanha russa funcionava; uma música estafada; um homem na bilheteira; as duas e o rapaz. A rapariga saltou para a enorme roda da montanha russa e esta começou a girar. Primeiro, lentamente, depois mais veloz, e finalmente como um raio. A rapariga deixou logo de se ver. Não era mais do que uma sombra.

O rapaz ficou preocupado. E a roda, que não abrandava, parecia querer atingir o céu. Ouviu-se um enorme grito, tão grande que suplantou o ruído da própria engrenagem. Era a menina, que circulava à velocidade da luz, e que pedia para pararem a enorme roda. Mas o homem que a controlava também tinha ido embora e havia apenas o cobrador, na bilheteira.

O rapaz tinha de agir depressa, para que a menina não fosse cuspida como uma bola de fogo, pelos ares, mas quando se dirigia para o cobrador, a fim de lhe pedir que fizesse alguma coisa, viu que este fechava o caixa, indiferente ao sofrimento da rapariga.

- Não faz nada? – Perguntou.

- Estou a fazer o que tem de ser feito – respondeu-lhe ele, enquanto guardava os molhos de notas.

- Não é isso que estou a dizer – insistiu o rapaz. – Não ouve os gritos desesperados da menina, na montanha russa?

- Sim, ouço. Mas que tenho eu com isso? A mim pagam-me como cobrador, mas, mesmo que assim não fosse, já estou na minha hora!

– Vou eu mesmo salvar a minha princesa – exclamou o rapaz.

- Pois podes vir tu mesmo para aqui, porque eu já estou a ir embora.

O rapaz saltou para o interior da cabina, que o cobrador acabava de deixar vazia, e passou os dedos, no escuro, pelos botões da engrenagem. Premiu um deles. A montanha russa abrandou ligeiramente, mas, ainda assim, continuou a rodar. Viam-se agora os cabelos louros da menina, sacudidos pelo vento e esta segurava-se com firmeza a um varão, para não cair.

O rapaz saltou para a roda e circulou entre os corcéis para atingir a rapariga, mas, quando estava a estender-lhe a mão, para a agarrar, a engrenagem deu um novo solavanco e ele foi projectado para fora. Entretanto, a música voltava a inundar a feira, como se houvesse ali muitos populares.

O cobrador já não se via e, mal o rapaz recuperou os sentidos, o seu pensamento foi logo para a rapariga: estaria bem? Quando olhou à sua volta, não a viu. Nem à mãe dela. Mas, como estava com tonturas, também não teve muito tempo para pensar nisso. Amparou-se, pois, num tronco de árvore e pôs-se de pé. A rapariga saltitava, muito feliz, uns metros à frente, largando a mão da mulher e segurando um sorvete.

A montanha russa estava definitivamente parada. As luzes apagadas. A porta da bilheteira batia com o vento e era a única coisa que se ouvia no recinto, além das risadas alegres da menina.

O rapaz pensou que deveria desistir de ir atrás dela; parecia-lhe estranha. A certa altura, as risadas pararam também e ele ouviu um comentário assim:

- Está na altura de lhe mentir.

- Boa ideia – disse, por sua vez, a mulher. – Ele vem aí atrás. E se lhe dissesses agora alguma coisa que ele gostasse de ouvir?

- Como por exemplo?

- Elogia-lhe os lindos cabelos negros.

- Pois, mas não me parece que ele tenha cabelos negros. Assim de noite, nem sequer me parecem cabelos negros.

- Então, fala-lhe da sua voz suave.

- Precisaria de o ouvir cantar – retorquiu a menina – e, como sabes, detesto música.

- Diz-lhe então o que te vier à cabeça, mas não te esqueças que o deves impressionar.

O rapaz não conseguiu perceber tudo quanto elas disseram, mas alguma coisa lhe dizia que ela e a mulher não eram pessoas de confiança, o que era estranho, pois, tão nova assim, uma menina deveria merecer sempre a confiança dos outros. E, por isso mesmo, decidiu também confiar na voz do seu coração e aproximar-se de ambas, para ver com os seus próprios olhos se a menina se tinha ferido, quando andara na montanha russa.

- Estás bem? – Perguntou-lhe ele, mal se aproximou. – Estava preocupado contigo.

- És tão gentil – elogiou ela. – Estou comovida.

Os olhos da menina eram doces e carinhosos; o seu sorriso franco; as suas mãos frágeis; toda ela era encantadora.

- És como uma princesa – mal se atreveu ele a murmurar.

- E tu és como um príncipe encantado - disse a princesa.

- Obrigada pelo elogio, meu príncipe encantado!

- De nada, minha linda e maravilhosa princesa!

- O que é que me chamaste?

- O que é que tu achas?

- Não sei.

- Chamei-te: linda e maravilhosa princesa.

- Ah! Ainda bem!

- O quê?!

- Foi mesmo isso que ouviste, o que eu disse foi: Ah! Ainda bem!

- Minha linda e maravilhosa princesa, o que se passa contigo?

- Nada! - Disse a princesa.

O rapaz não se convenceu do que a princesa disse, mas tinha de a deixar estar um tempo sozinha para esta pensar o que ia fazer com ele. Ao ver que a rapariga se encaminhava para a saída, disse-lhe:

- Vais sair da feira popular?

- Não – respondeu ela.

- Mas devias – disse-lhe ele, misteriosamente. Como ela o olhava com espanto, ele acrescentou: - Estás a ver ali a caverna dos dragões? – A rapariga acenou que sim e ele continuou: - Pois, às sete horas, os dragões ganham vida e vomitam línguas de fogo. Seria desastroso que o teu belo vestido de princesa fosse destruído pelos dragões.

A resposta da rapariga, porém, surpreendeu-o:

- O meu pai foi mordido por um dragão e fui eu quem o salvou. A minha força é invulgar e não há dragão que resista ao meu encanto e à minha voz doce.

- Então, fica – respondeu-lhe ele, decidido a medir a sua coragem e a sua sinceridade. – Mas olha que, se alguma coisa te acontecer, eu não posso voltar a ajudar-te. Vês como eu estou ferido?

Deram uma volta à feira popular. A mulher não os abandonava nunca. O rapaz ainda tentou dar-lhe a mão, mas ela fingia que apanhava uma folha de árvore do chão, que acariciava um gato, que alisava os seus longos cabelos, que pousava a sua mão no peito para conter um suspiro, e enganava-o deste modo.

Quando davam a volta completa à feira, o rapaz viu que estava cada vez mais escuro, o que era estranho, pois ainda eram cinco horas da tarde e, como estavam no Verão, não anoitecia nunca antes das vinte e duas horas. Além disso, não havia Lua nem estrelas e o céu estava mesmo negro. Grossas gotas de suor caíam da sua fronte e a rapariga ofereceu-lhe um lenço para ele as enxugar.

- Estranho – comentou ele, consigo próprio.

A rapariga parecia que ouvia os seus pensamentos.

Ao lado deles, surgiu, de repente, um velho apoiado numa bengala, sem se saber de que lado vinha. O velho caminhava de lado e parecia assustado. Talvez fosse devido às nuvens ameaçadoras sobre as suas cabeças. Quando este viu a mulher que acompanhava as duas crianças, levantou a sua bengala e gritou uma série de palavras sem sentido. Mas havia um tom na sua voz que o rapaz achou interessante.

- Venham – disse-lhes a mãe da menina, a dobrar a esquina. – Apressem-se, que está quase a chover.

- Esperem – dizia-lhes o rapaz. – É só uma pequena nuvem cinzenta. Além do que este senhor parece chamar-nos.

Quando se aproximou, o velho inflamou-se de um entusiasmo súbito e, ao ver os olhos azuis da pequena, disse ao rapaz:

- Não confies nesses olhos. São enganadores. – Logo depois, desapareceu.

Os três ficaram a vê-lo fugir ao longe. O rapaz, surpreendido por tão estranha advertência. A rapariga, por se sentir ameaçada. A velha por se julgar desmascarada.

Os olhos da menina sorriam ao ver que o rapaz a observava atentamente, mas, sempre que este fingia distracção, ficavam novamente sérios e sombrios. A certa altura, o rapaz fez-lho notar e ela desculpou-se, mas ele voltou a fazer-lho notar e ela voltou a desculpar-se. Quando ele lho fez notar pela terceira vez, disse-lhe:

- Provavelmente o velho tinha razões para dizer o que disse e eu não devo confiar em ti. Aliás não vou mesmo nunca confiar em ti. Umas vezes dizes umas coisas, logo a seguir dizes outras; pareces triste e alegre ao mesmo tempo; detestas o carrocel e a seguir adoras.

A rapariga desviou a saia, e retirou um lenço de um bolso escondido no forro. O rapaz disse-lhe ainda:

- Tudo em ti é fingido. Vês esse teu bolso?

A rapariga começou a chorar e as suas lágrimas eram tão abundantes e pareciam tão sinceras que até os cavalinhos da feira popular pareceram comover-se diante de tal tristeza; um, porém, mais velho e sábio que os restantes, tombado ao lado da cabina de som, muito enferrujado e com uma pata de plástico quebrada, disse-lhes que tinha estado ali todo o tempo a ver as duas – a rapariga e a mulher – e que surpreendera as suas conversas. Não gostara nada do que ouvira. Se o rapaz quisesse, poderia mesmo chamar também o papagaio de borracha, da barraca ao lado, e o espantalho do jardim de ervilhas, que naquele dia estavam sem ter que fazer, e eles haveriam de confirmar tudo o que estava a dizer, com todos os pormenores.

A rapariga é que não estava nada contente com tais ditos; não que fosse má pessoa, mas porque estava habituada a dizer mentiras pequenas e a pregar partidas e ficava feliz quando apanhava alguém desprevenido. O rapaz parecia-lhe que acreditava sempre nas maiores mentiras e ela estava a sentir-se muito contente com isso.

A certa altura, o papagaio de borracha levantou voo e deu uma bicada nos lindos cabelos louros da princesa, que se soltaram. Eram cabelos de palha. O espantalho rodopiou com os braços abertos e atingiu a princesa, que se desmanchou. Finalmente, os corcéis galoparam para fora do carrocel e disseram:

- Era bonita, como nós, mas feita de molas, de palha e de peças articuladas. Não passava de uma atracção da feira popular.

Depois, todos eles voltaram a desempenhar as respectivas funções na feira e tudo voltou ao normal. Quando chegou junto à montanha russa, o rapaz esqueceu de vez a história e divertiu-se até não poder mais.