sábado, 2 de outubro de 2010

A Rã Rabina

(Uma floresta, um lago ao centro, mais adiante, um caminho sinuoso, um pouco além a casa da feiticeira boa. À direita, na cena, a Feiticeira boa, longos cabelos grisalhos, vestuário branco e largo, bonacheirona.)

FEITICEIRA BOA (Cantando e dançando.)

A Lagosta diz que tem sapatinhos de veludo

A Lagosta diz que tem sapatinhos de veludo

É mentira da Lagosta, ela tem é os pés cascudos

Ah! Ah! Ah! Eh! Eh! Eh!

Ela tem é os pés cascudos.

(Vendo que não está só.) Ah! Não pensei que tivessem vindo. Logo hoje que estou tão atarefada. Aproveitei que a minha Lagosta foi passear pela floresta, para pôr a conversa em dia com a comadre raposa e com o compadre sapo. Mas que cabeça a minha! Uma senhora educada tem sempre de dizer: bom dia! (Gesto prolongado.) Vieram todos? Estão bem dispostos? (Espera pela resposta dos meninos.) Ah! (Caindo em si, de novo.) Que tonta que sou. Estou para aqui a falar e ainda nem sequer me apresentei. Eu sou Luana, a feiticeira da Lua.

FEITICEIRA MÁ (À esquerda, cabelo curto e desgrenhado, vestuário alaranjado.)

Olá, meninos e meninas! Eu sou a filha da feiticeira Luana e chamo-me Lagosta, porque vivo numa casa muito grande, junto ao lago. (De frente, para a feiticeira Luana.) Que fazes aqui, feiticeira Luana?

LUANA (Surpreendida.)

Eu é que pergunto: o que é que fazes aqui, feiticeira Lagosta? Não era para andares pela floresta, a piquenicar, a bebericar e a enfeitiçar?

LAGOSTA

Era, era, mãezinha, mas decidi enfeitiçar, bebericar e piquenicar aqui ao pé da tua casa. E tu, que estás a fazer cá fora?

LUANA (Atrapalhada.)

Ah! Estava a passear pelos campos e encontrei estes meninos.

LAGOSTA (Vendo os meninos.)

Eia! Tantos meninos! Um, dois, três... (Conta os meninos.) Sabiam que eu gosto muito dos meninos e das meninas? Para vos provar que é verdade, vou contar-vos uma história muito bonita. Querem?

LUANA

Não, não, não! Não penses que vais contar uma das tuas histórias tão feias. (Dirige-se a um menino.) Olá! Eu sou Luana, e tu, como te chamas?

MENINO (Diz como se chama.)

LAGOSTA

Diz aí, ..., aos teus amiguinhos que não façam caso do que esta senhora está a dizer.

LUANA (Perdendo a paciência.)

Bora, desanda, butes, põe-te longe, feiticeira má. A não ser que...

LAGOSTA

A não ser que o quê?

LUANA

A não ser que queiras levar uma lição.

LAGOSTA

Uma lição? Ah! Ah! Ah! Ah!

LUANA

Podes contar o que quiseres, que estes meninos não vão acreditar numa única palavra tua! Queres experimentar!

LAGOSTA

E que é que eu ganho com isso?

LUANA

Nada.

LAGOSTA

Não faz mal.

(Luana sai de cena. Lagosta dá dois passos, roda o vestido, retoca o penteado e aproxima-se dos meninos, impaciente.)

LAGOSTA (Junto ao público.)

Meninos, já ouviram falar da história do coelho Cocas e da rã Rabina?

MENINOS

Não.

LAGOSTA

Então vou contar. Mas cheguem-se para lá, que eu preciso de espaço. (Espera que os meninos e as meninas se afastem.) Era uma vez... Era uma vez... Era uma vez... Um momento.

(Entra a rã Rabina, que interrompe a Lagosta. Esta afasta-se e a rã Rabina dá pequenos saltos até ao centro da cena e pára para se mirar num charco hipotético.)

RABINA

Charco meu, charco meu, haverá na floresta um animal mais lindo do que eu?

LUANA (Invisível.)

Sim, há. O coelho Cocas.

RABINA (Chorando, desesperada.) Velho charco rabujento! Vou perguntar ao meu espelho. Vais ver que ele me vai dizer que eu sou o animal mais lindo da floresta. (Faz que retira um espelho do bolso e que se mira nele, penteando os seus longos cabelos castanhos.)

RABINA

Espelho meu! Espelho meu! Haverá algum animal na floresta mais belo do que eu?

(Ouve-se um estrondo e Rabina estremece.)

RABINA

O que é isto? (Dirigindo-se aos meninos.) Ouviram alguma coisa?

MENINOS

Não. Sim.

RABINA

Sim ou não! Ouviram ou não ouviram? Bom, vamos lá outra vez! Espelho meu, espelho meu, haverá algum animal na floresta mais lindo do que eu?

(Entra o coelho Cocas, aos saltos pela cena e cantando.)

COELHO

De olhos vermelhos e pêlo branquinho,

aos saltos bem altos, eu sou um coelhinho,

comi uma cenoura com casca e com tudo,

ela era assim tão grande

que eu fiquei um barrigudo.

Aos saltos para a frente, aos saltos para trás,

Eu sou um coelhinho e de tudo sou capaz.

RABINA (Furiosa.)

Seu desmancha-prazeres!

COCAS

És sempre a mesma Rabina! Tu é que és uma desmancha-prazeres. Não vês que eu estava a cantar?

RABINA (Despeitada.)

E eu estava a falar com o meu espelho.

COCAS

E o que é que o espelho te disse?

RABINA

Que sou o animal mais lindo da floresta. Não foi, meninos?

MENINOS (Em coro.)

Não.

COCAS

Deixa lá, Rabina. Os espelhos às vezes também mentem. Não vês a minha barriga? (Exagera a barriga, que não tem.) Quando eu olho ao espelho, nem vejo o meu umbigo. Mas eu sei que tenho umbigo como todos os coelhos.

RABINA (Pensativa.)

Engraçado. Para dizer a verdade, nunca reparei que os coelhos tivessem umbigos. Os coelhos têm... (Acena com as mãos e sugere aos meninos que repitam.) ... mãos... (Faz um gesto exagerado com a cabeça e sugere aos meninos que repitam.)... cabeça (Faz um gesto exagerado com os pés e sugere aos meninos que repitam.)... pés... (Faz um gesto exagerado com as mãos, que apontam para os olhos, e sugere aos meninos que repitam.)... olhos... (Faz um gesto exagerado com as mãos, apontando as orelhas e sugere aos meninos que repitam.)... orelhas...

COCAS (Impaciente.)

Chega, Rabina. Hoje estou muito triste porque a minha barriga cresceu um milímetro e eu engordei uma grama.

RABINA

E eu estou furiosa porque ninguém gosta de mim.

COCAS

Por que é que ninguém gosta de ti?

RABINA

Porque sou o animal mais lindo da floresta. Há quem ache até que sou mais linda do que o leão Estrela, e o leão Estrela até tem uma juba muito linda!

COCAS

Realmente! O leão Estrela é mesmo muito lindo!

RABINA

Ontem, fui à costureira, e encomendei um vestido às listas, mas ela não achou bem.

COCAS

Porquê? Diz.

RABINA

Porque os vestidos às listas já não se usam, ainda para mais a zebra dona Zélia, que sempre usou vestidos às listas, diz-se que mudou de visual e agora só encomenda vestidos às bolinhas.

COCAS

A zebra dona Zélia sempre foi muito antipática, não é?

RABINA

Realmente! Ainda para mais, depois que ficou amiga da girafa Giroflé, não fala com ninguém.

COCAS

Pois não! Por acaso, já tinha reparado. Onde as tenho visto muitas vezes é na esteticista Clotilde, a encherem as peles e a eliminarem as gorduras.

COCAS

Sabes, Rabina, ouvi que há um cavalinho muito bonito que não tem destes problemas. Já ouviste falar do cavalo Cavalão?

RABINA

Já. É aquele que anda no carrossel, não é?

COCAS

É esse mesmo. Ao menos, esse não tem problemas com a barriga. Anda todo o dia numa roda-viva, em cima do carrossel.

RABINA

Pois não, mas dizem que tem uma orelhas de burro e uma cabeça de papel.

COCAS (Desolado.)

Ah! Pobre cavalinho!

RABINA

Para não falar que deve ter a cabeça às voltas, de tanto andar à roda. Além do mais, não sei se já reparaste que afinal não é ele que anda, mas é o carrossel que anda por ele.

COCAS

Vamos cantar a canção do cavalinho, amiga Rabina?

RABINA

Boa ideia. Mas podemos ensinar a canção a estes meninos e depois cantamos juntos.

(Ensaiam a canção com os meninos e depois cantam todos juntos.)

TODOS

Era uma vez um cavalinho

que vivia num lindo carrossel

tinha orelhas de burro

e a cabeça era feita de papel.

A galope... xa-la-la...

sem parar... xa-la-la...

cavalinho nunca sai do seu lugar...

xa-la-la...

(Enquanto cantam, entra a feiticeira má e olha, espantada, para Cocas e Rabina. Interrompe.)

LAGOSTA

O que vocês mereciam era uma valente lagosta!

COCAS

Porquê, feiticeira má?

LAGOSTA

Onde já se viu, estragarem a minha história com cantigas... Vamos, daqui para fora.

LUANA (Entrando.)

Eu bem te dizia, Lagosta! Serviu-te a lição, serviu?

LAGOSTA (Disfarçando.)

Porquê? Os meninos adoraram a minha história, não foi?

(Os meninos não respondem.)

LUANA

Vai-te embora, Lagosta. Perdeste a aposta e recebeste uma grande lição.

(A feiticeira Lagosta sai de cena e os elementos do cenário dançam, juntos, uma canção e assim acaba a história.)

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