sábado, 2 de outubro de 2010

A Feira Popular

Era uma menina muito bonita. Tranças louras, olhos verdes, sorriso de água. Mas parecia-lhe tão frágil que, mesmo estando afastado dela, não desviava o olhar. E então, quando saiu da barraca de tiro ao alvo e deixou de a ver, ficou com tanta pena que correu entre os populares para a procurar em todo o lado.

- Está ali a minha princesa – pensou, logo que voltou a vê-la. – Por pouco a perdia completamente de vista.

Mas depois, ao ver que esta não sorria quase nunca, nem diante do carro das farturas nem no interior do pavilhão do circo, começou a pensar que ela fosse uma boneca articulada com rosto de cera. O desejo de a beliscar começou a crescer no seu coração e imaginou uma forma de se aproximar dela, talvez até de lhe falar. Se estivesse com sorte, a rapariga haveria de lhe sorrir e, no fim, até aceitaria comer algodão doce com ele.

A mulher que a acompanhava dizia-lhe frases ao ouvido e nunca lhe largava a mão.

A certa altura, a menina apontou para um foco de luz, que iluminava um trapezista e lançava sombras sobre a plateia. A mulher, ao lado dela respondeu-lhe com um encolher de ombros e a rapariga permaneceu mais uns momentos estática, diante do homem do trapézio.

- Vamos agora assistir a um triplo salto mortal – disse uma voz poderosa, que ecoou em todo o recinto. A assistência soltou um grito abafado e surdo. Ouviu-se o ribombar dos tambores. A vida do trapezista estava pendurada lá em cima, no alto do trapézio.

O rapaz aproximou-se. Sentou-se atrás da rapariga, ouvindo a sua respiração ofegante e sentindo a sua pele quente.

- Não é uma boneca articulada – pensou. – Muito menos de cera. Tenho de falar com ela.

Quando o trapezista dava o triplo salto mortal, a rapariga virou-se para trás e os seus olhos verdes chocaram com os olhos castanhos do rapaz e os dois desviaram imediatamente o olhar. Ela, indiferente; ele, com vergonha.

- Vamos embora – disse a mulher. – Esta actuação está a deixar-me nervosa.

O rapaz, então teve uma ideia:

- Não saia agora – disse à mulher, pondo-lhe a mão no ombro.

- Tire a sua mão de cima de mim – ordenou-lhe ela, vendo que estava a ser incomodada por um rapaz de pouco mais de nove anos.

- Lá fora está uma coisa que não vai querer ver.

- Vamos – disse de novo a mulher. Só então é que o rapaz viu bem que os cabelos da menina não eram absolutamente louros, mas, conforme lhe incidiam os holofotes do circo, estes ficavam cada vez mais claros, quase brancos. A menina levantou-se. Os seus olhos mostravam umas rugas muito salientes nos cantos e dir-se-ia que ela estava a chorar.

- Por que estás triste? – Perguntou-lhe o rapaz, enternecido.

- Porque quero andar na montanha russa e a minha mãe não autoriza.

- E choras apenas por causa disso?

A rapariga rompeu em lágrimas e a mãe arrastou-a pelo corredor central da plateia, até lá fora. O rapaz seguiu-as e ficou escondido atrás duma banca de gelados, a vê-las. Para disfarçar, comprou um gelado de baunilha e, enquanto contava o troco que o homem lhe dava, viu que a menina comprava também um pau de algodão doce e saltitava, muito feliz, em direcção à montanha russa.

- Há alguma coisa que não bate certo – pensou mais uma vez o rapaz. – Vou ver.

A rapariga parara de chorar e parecia até estar muito contente e ele pensou que se se aproximasse e lhe falasse de novo, ela iria talvez falar com ele de outra forma. Observou-a mais ao perto. Notou-lhe uma tremura no queixo e ele até achou isso bonito. A mãe foi comprar um bilhete para os carrinhos de choque e viu-o de relance.

- Lá está ele – deve ter pensado a menina, zangada, porque correu a ir ter com a mãe. Depois, deve ter-lhe dito que o rapaz estava a persegui-la, porque a mãe olhou em todas as direcções, talvez na esperança de o encontrar entre a multidão.

O gelado derretia-se nas mãos do rapaz.

De repente, a feira popular ficou inexplicavelmente deserta. Apenas a montanha russa funcionava; uma música estafada; um homem na bilheteira; as duas e o rapaz. A rapariga saltou para a enorme roda da montanha russa e esta começou a girar. Primeiro, lentamente, depois mais veloz, e finalmente como um raio. A rapariga deixou logo de se ver. Não era mais do que uma sombra.

O rapaz ficou preocupado. E a roda, que não abrandava, parecia querer atingir o céu. Ouviu-se um enorme grito, tão grande que suplantou o ruído da própria engrenagem. Era a menina, que circulava à velocidade da luz, e que pedia para pararem a enorme roda. Mas o homem que a controlava também tinha ido embora e havia apenas o cobrador, na bilheteira.

O rapaz tinha de agir depressa, para que a menina não fosse cuspida como uma bola de fogo, pelos ares, mas quando se dirigia para o cobrador, a fim de lhe pedir que fizesse alguma coisa, viu que este fechava o caixa, indiferente ao sofrimento da rapariga.

- Não faz nada? – Perguntou.

- Estou a fazer o que tem de ser feito – respondeu-lhe ele, enquanto guardava os molhos de notas.

- Não é isso que estou a dizer – insistiu o rapaz. – Não ouve os gritos desesperados da menina, na montanha russa?

- Sim, ouço. Mas que tenho eu com isso? A mim pagam-me como cobrador, mas, mesmo que assim não fosse, já estou na minha hora!

– Vou eu mesmo salvar a minha princesa – exclamou o rapaz.

- Pois podes vir tu mesmo para aqui, porque eu já estou a ir embora.

O rapaz saltou para o interior da cabina, que o cobrador acabava de deixar vazia, e passou os dedos, no escuro, pelos botões da engrenagem. Premiu um deles. A montanha russa abrandou ligeiramente, mas, ainda assim, continuou a rodar. Viam-se agora os cabelos louros da menina, sacudidos pelo vento e esta segurava-se com firmeza a um varão, para não cair.

O rapaz saltou para a roda e circulou entre os corcéis para atingir a rapariga, mas, quando estava a estender-lhe a mão, para a agarrar, a engrenagem deu um novo solavanco e ele foi projectado para fora. Entretanto, a música voltava a inundar a feira, como se houvesse ali muitos populares.

O cobrador já não se via e, mal o rapaz recuperou os sentidos, o seu pensamento foi logo para a rapariga: estaria bem? Quando olhou à sua volta, não a viu. Nem à mãe dela. Mas, como estava com tonturas, também não teve muito tempo para pensar nisso. Amparou-se, pois, num tronco de árvore e pôs-se de pé. A rapariga saltitava, muito feliz, uns metros à frente, largando a mão da mulher e segurando um sorvete.

A montanha russa estava definitivamente parada. As luzes apagadas. A porta da bilheteira batia com o vento e era a única coisa que se ouvia no recinto, além das risadas alegres da menina.

O rapaz pensou que deveria desistir de ir atrás dela; parecia-lhe estranha. A certa altura, as risadas pararam também e ele ouviu um comentário assim:

- Está na altura de lhe mentir.

- Boa ideia – disse, por sua vez, a mulher. – Ele vem aí atrás. E se lhe dissesses agora alguma coisa que ele gostasse de ouvir?

- Como por exemplo?

- Elogia-lhe os lindos cabelos negros.

- Pois, mas não me parece que ele tenha cabelos negros. Assim de noite, nem sequer me parecem cabelos negros.

- Então, fala-lhe da sua voz suave.

- Precisaria de o ouvir cantar – retorquiu a menina – e, como sabes, detesto música.

- Diz-lhe então o que te vier à cabeça, mas não te esqueças que o deves impressionar.

O rapaz não conseguiu perceber tudo quanto elas disseram, mas alguma coisa lhe dizia que ela e a mulher não eram pessoas de confiança, o que era estranho, pois, tão nova assim, uma menina deveria merecer sempre a confiança dos outros. E, por isso mesmo, decidiu também confiar na voz do seu coração e aproximar-se de ambas, para ver com os seus próprios olhos se a menina se tinha ferido, quando andara na montanha russa.

- Estás bem? – Perguntou-lhe ele, mal se aproximou. – Estava preocupado contigo.

- És tão gentil – elogiou ela. – Estou comovida.

Os olhos da menina eram doces e carinhosos; o seu sorriso franco; as suas mãos frágeis; toda ela era encantadora.

- És como uma princesa – mal se atreveu ele a murmurar.

- E tu és como um príncipe encantado - disse a princesa.

- Obrigada pelo elogio, meu príncipe encantado!

- De nada, minha linda e maravilhosa princesa!

- O que é que me chamaste?

- O que é que tu achas?

- Não sei.

- Chamei-te: linda e maravilhosa princesa.

- Ah! Ainda bem!

- O quê?!

- Foi mesmo isso que ouviste, o que eu disse foi: Ah! Ainda bem!

- Minha linda e maravilhosa princesa, o que se passa contigo?

- Nada! - Disse a princesa.

O rapaz não se convenceu do que a princesa disse, mas tinha de a deixar estar um tempo sozinha para esta pensar o que ia fazer com ele. Ao ver que a rapariga se encaminhava para a saída, disse-lhe:

- Vais sair da feira popular?

- Não – respondeu ela.

- Mas devias – disse-lhe ele, misteriosamente. Como ela o olhava com espanto, ele acrescentou: - Estás a ver ali a caverna dos dragões? – A rapariga acenou que sim e ele continuou: - Pois, às sete horas, os dragões ganham vida e vomitam línguas de fogo. Seria desastroso que o teu belo vestido de princesa fosse destruído pelos dragões.

A resposta da rapariga, porém, surpreendeu-o:

- O meu pai foi mordido por um dragão e fui eu quem o salvou. A minha força é invulgar e não há dragão que resista ao meu encanto e à minha voz doce.

- Então, fica – respondeu-lhe ele, decidido a medir a sua coragem e a sua sinceridade. – Mas olha que, se alguma coisa te acontecer, eu não posso voltar a ajudar-te. Vês como eu estou ferido?

Deram uma volta à feira popular. A mulher não os abandonava nunca. O rapaz ainda tentou dar-lhe a mão, mas ela fingia que apanhava uma folha de árvore do chão, que acariciava um gato, que alisava os seus longos cabelos, que pousava a sua mão no peito para conter um suspiro, e enganava-o deste modo.

Quando davam a volta completa à feira, o rapaz viu que estava cada vez mais escuro, o que era estranho, pois ainda eram cinco horas da tarde e, como estavam no Verão, não anoitecia nunca antes das vinte e duas horas. Além disso, não havia Lua nem estrelas e o céu estava mesmo negro. Grossas gotas de suor caíam da sua fronte e a rapariga ofereceu-lhe um lenço para ele as enxugar.

- Estranho – comentou ele, consigo próprio.

A rapariga parecia que ouvia os seus pensamentos.

Ao lado deles, surgiu, de repente, um velho apoiado numa bengala, sem se saber de que lado vinha. O velho caminhava de lado e parecia assustado. Talvez fosse devido às nuvens ameaçadoras sobre as suas cabeças. Quando este viu a mulher que acompanhava as duas crianças, levantou a sua bengala e gritou uma série de palavras sem sentido. Mas havia um tom na sua voz que o rapaz achou interessante.

- Venham – disse-lhes a mãe da menina, a dobrar a esquina. – Apressem-se, que está quase a chover.

- Esperem – dizia-lhes o rapaz. – É só uma pequena nuvem cinzenta. Além do que este senhor parece chamar-nos.

Quando se aproximou, o velho inflamou-se de um entusiasmo súbito e, ao ver os olhos azuis da pequena, disse ao rapaz:

- Não confies nesses olhos. São enganadores. – Logo depois, desapareceu.

Os três ficaram a vê-lo fugir ao longe. O rapaz, surpreendido por tão estranha advertência. A rapariga, por se sentir ameaçada. A velha por se julgar desmascarada.

Os olhos da menina sorriam ao ver que o rapaz a observava atentamente, mas, sempre que este fingia distracção, ficavam novamente sérios e sombrios. A certa altura, o rapaz fez-lho notar e ela desculpou-se, mas ele voltou a fazer-lho notar e ela voltou a desculpar-se. Quando ele lho fez notar pela terceira vez, disse-lhe:

- Provavelmente o velho tinha razões para dizer o que disse e eu não devo confiar em ti. Aliás não vou mesmo nunca confiar em ti. Umas vezes dizes umas coisas, logo a seguir dizes outras; pareces triste e alegre ao mesmo tempo; detestas o carrocel e a seguir adoras.

A rapariga desviou a saia, e retirou um lenço de um bolso escondido no forro. O rapaz disse-lhe ainda:

- Tudo em ti é fingido. Vês esse teu bolso?

A rapariga começou a chorar e as suas lágrimas eram tão abundantes e pareciam tão sinceras que até os cavalinhos da feira popular pareceram comover-se diante de tal tristeza; um, porém, mais velho e sábio que os restantes, tombado ao lado da cabina de som, muito enferrujado e com uma pata de plástico quebrada, disse-lhes que tinha estado ali todo o tempo a ver as duas – a rapariga e a mulher – e que surpreendera as suas conversas. Não gostara nada do que ouvira. Se o rapaz quisesse, poderia mesmo chamar também o papagaio de borracha, da barraca ao lado, e o espantalho do jardim de ervilhas, que naquele dia estavam sem ter que fazer, e eles haveriam de confirmar tudo o que estava a dizer, com todos os pormenores.

A rapariga é que não estava nada contente com tais ditos; não que fosse má pessoa, mas porque estava habituada a dizer mentiras pequenas e a pregar partidas e ficava feliz quando apanhava alguém desprevenido. O rapaz parecia-lhe que acreditava sempre nas maiores mentiras e ela estava a sentir-se muito contente com isso.

A certa altura, o papagaio de borracha levantou voo e deu uma bicada nos lindos cabelos louros da princesa, que se soltaram. Eram cabelos de palha. O espantalho rodopiou com os braços abertos e atingiu a princesa, que se desmanchou. Finalmente, os corcéis galoparam para fora do carrocel e disseram:

- Era bonita, como nós, mas feita de molas, de palha e de peças articuladas. Não passava de uma atracção da feira popular.

Depois, todos eles voltaram a desempenhar as respectivas funções na feira e tudo voltou ao normal. Quando chegou junto à montanha russa, o rapaz esqueceu de vez a história e divertiu-se até não poder mais.


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