O rapaz, que não viu o pintor, quando entrou foi de imediato atraído por um foco de luz aureolando um esboço que se desfazia em cores no pano branco. Era o retrato de um jovem cujo cabelo, precipitando-se sobre o colo, parecia uma torrente de ouros de um vulcão em fúria. Dir-se-ia que o artista se apaixonara pelo seu modelo, tal fora a generosidade com que lhe pintara os olhos de um azul-porcelana, onde se via o céu e o mar sobre ele. Era realmente um homem lindo, aquele, e possuidor de encantos divinos. Qualquer artista o quereria, porque, na natureza, nunca se vira nada assim. Por isso, o que o rapaz sentiu foi ciúmes. Muitos ciúmes.
O retrato, porém, estava inacabado. Faltava-lhe o traço do génio, a fúria do homem. E o pintor não estava ali, apesar de a porta estar aberta e a chama queimar na lareira e leves traços de tinta fazerem supor que estava perto. Onde estaria? Porque saíra, agora que estava tão próximo do alto? O rapaz afastou uma cadeira, que gemeu sobre as suas quatro pernas empenadas, e foi à procura do homem. Talvez este se encontrasse na câmara contígua, donde emanava um cheiro fresco a hortelã. A câmara tinha cama, cómoda, bacio. Havia, na verdade, um ramo de hortelã sobre a cómoda, que desinfectava o quarto e fazia com que este tivesse um ar de lavado. Em cima do móvel, encontrou ainda vários esboços. Todos da mesma pessoa. Uns de corpo. Outros de corpo e meio. Uns ainda de perfil; outros de frente. Em todos, o mesmo ar de mistério e de sedução. Aquele rapaz começava a interessar-lhe mais do que o próprio pintor.
Quando se virou, viu-o.
- Bom dia.
O mestre admirava-o à porta da câmara e parecia feliz por vê-lo.
- Bom dia.
Cheirava a vinho. Tinha os punhos da camisa levantados. Os olhos abertos há vários dias. Um ar de puro desleixo.
- Quem é este? – O rapaz colocava os esboços, um a um, sobre a cama.
- Gosta?
- Hmmm! Não me parece mal.
- Este é você!
- Eu? – disse ele, como se tivesse sido uma surpresa.
- Sim.
- Na verdade, não me julgava assim.
Um dia, vira-se no rio, ondeando, mas perdera-se ao ver as sombras das árvores sobre a película da água e depois, quando se quis de novo ver, a chuva que começou a cair roubou-lhe o retrato e levou-o para onde nunca mais o conseguiu alcançar. Por isso não se conhecia. Passaria a conhecer-se através dos olhos do mestre, a quem dava o seu corpo, sem lhe dar a alma.
- Quero-o.
- Aqui me tem. Durante o Inverno. Partirei com a Primavera!
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