A porta estava aberta, quando chegou; a cancela também; batiam-lhe um ventinho bom que descia de uma clarabóia. O jovem vinha despenteado, não muito, mas, para ficar ainda mais belo, passou os cabelos finos nos dedos, a fazer de pente, mirando-se a um espelho que trazia no bolsilho das calças. Depois, considerando que a sua figura aprazaria ao mestre, que imaginava encontrar sentado numa trave, vergado sobre uma tela pintalgada de cores e de formas, de costas contra a claridade, guardou o espelho no mesmo bolso. Aprumou as calças, sacudiu o pó das alparcas, ajeitou as fivelas do calçado e constatou:
- Não pus roupas novas, não. Porém, cheiro a lavanda e tenho o aspecto de um príncipe. Hoje, o mestre receber-me-á e o meu corpo encherá de brilho o tecido que me espera com sede e fome. Será difícil traduzir em cores e formas este brilho que tenho. A obra será sempre incompleta, imperfeita, e o pintor conformar-se-á à sua condição triste de artista menor.
Entrou. A porta continuou aberta e a bater na cancela. A um canto, junto à lareira, que, apesar do sol exterior, mantinha acesa a sua chama, uma galinha pedrês aconchegava os seus filhotes sob as asas e debicava-os um a um com ternuras de mãe. O pintor, que não viu quem entrava, entaramelava monossílabos, enquanto desfazia cores no godé e borrava o o seu uniforme de trabalho.
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