O jovem teria tentado uma nova corrida atrás do mestre, se as condições não tivessem sido adversas. Mas choveu no pequeno enclave de casebres, cortiços e colmeias onde ele morava e, da nesga de janela que lhe iluminava os chouriços pendurados por cima do forno, só lhe restava admirar o Sol pousado na cidade, cantando nos riachos e queimando os fardos de palha enfileirados pelo monte acima.
A espera foi fastidiosa, já que, isolado do mundo, sem se atrever a pôr pé sobre a lama, o rapaz não tinha alternativas, além de traçar desenhos sobre vegetais secos de folha larga, que laboriosamente estendia e cortava e enchia de riscos, para de seguida amontoar a canto.
Recebeu a visita de um médico que passava uma vez de seis em seis meses no enclave e que, constatando que tudo estava bem, se despediu sem delongas, prometendo nova visita na Primavera.
Uma ideia, porém, o obcecava e, se não fossem os sintomas de gripe, breve teria saído de casa, subido a serra, calcorreado monte atrás de monte, atrás do cheiro bom do acrílico e dos dissolventes que o pintor manuseava com mestria e constância.
Naquele dia, abriu a porta que dava para o largo e a cancela enferrujada que calçava a porta cedeu e despedaçou-se. O Sol brilhava e o rapaz interpretou essa pequena conjugação de acontecimentos como um presságio de bom tempo, mas, olhando para o longe, vendo que sobre o horizonte as nuvens se contorciam em tons de cinzento e negro, amargas como a noite, sentiu um tremor que o atirou para a cama, onde permaneceu por mais cinco dias e cinco noites.
Durante esse tempo, delirou. Visitou Rembrandt, a quem se apresentou como senhor de uma beleza inigualável, que o pintor admirou e eternizou em breves segundos. O encanto dos deuses enche o coração dos homens, mas só os artistas vislumbram o perfume fugaz que dele se solta. E esse perfume traduziu-o Rembrandt em azuis, verdes e amarelos, como se fossem sóis.
Numa das suas alucinações, viu o jovem que o artista deixava de pintar, para estender o corpo cansado sobre um estrado preto. Acordou-o.
Sentiu-se subitamente melhor, o jovem, e, esfregando os olhos ensonados, esqueceu o sonho e procurou uma malga onde entornar o café e fazer migas. A lareira estava fria e encarquilhada, como as pernas de uma mulher velha. O que lhe valeram foram os chouriços.
Novamente de pé, foi lavar-se. Aquelas águas levaram-no até uma cascata, onde normalmente se refrescava. Era um troço de rio onde ia muitas vezes refrescar-se, mas também onde se sentia sempre como todos os poucos habitantes do lugarejo. Dizia o vizinho da frente, um pastor que nunca saíra do lugar a não ser para negociar as suas ovelhas e que passava o dia a falar sozinho, sempre que o rapaz regressava escorrendo vulgaridade, que o jovem seria um pastor como ele. As ovelhas conheciam-no. O cão também.
E ensinou-o a contar, no feminino. Uma. Duas. Três... Vinte... Vinte e uma... Vinte e duas...
Sempre que o via a passear beleza, o pastor, que afirmava nunca ter sido belo, mas que ainda assim casara e tivera uma cesta de filhos, dizia que para um pastor ser pastor o importante mesmo era ter boa memória, para conhecer as suas rezes pelo nome, ter a confiança do cão e o medo das meninas. Nesses momentos, o jovem, vendo que era capaz de conduzir o rebanho pelos cabeços e permanecer longas horas isolado no monte, alimentando-se de uvas amargas e de frutos silvestres, considerava que o homem tinha a sua razão. Fazia, pois, votos de fé na sua condição de aldeão e prometia fidelidade à mãe natureza, aos ventos, ao frio, à geada e à neve.
- Perdeu-se uma ovelha no cimo do monte – disse o jovem. O velho contou-as. Eram vinte e nove cabeças. Uma delas tinha parido na semana anterior. Estava de resguardo, alimentando as crias. Era a que faltava, mas o homem não lhe tinha relatado esse detalhe, ou porque estivesse senil ou porque esperasse que o discípulo reparasse. Os animais tinham andado desassossegados, explicava o jovem. – Definitivamente, abandonarei o pastoreio. Deixo-lhe o rebanho.
Chegado a casa, o rapaz abriu a portada da janela e viu que, como passaram quase duas semanas, já não tinha chouriços para comer. Depois, revirando as roupas, percebeu que cheirava mal. Foi então que decidiu tomar banho. O caminho que normalmente seguia em direcção ao rio estava intransitável. Desviou por um carreiro que serpenteava pela encosta e, em vez de descer, subia a um lugar onde o rio era mais transparente e cristalino. Despiu-se. Ensaboou-se. Observou-se na flor da água. Admirou-se. Os pés pisavam uns seixos rolados que lhe fizeram sentir a sua real humanidade. O Sol coroava-o com os seus doirados e ele sentiu-se um rei.
Homem e rei. Um deus analfabeto. A sua invejável beleza dar-lhe-ia de comer e em vez de chouriços, encheria a boca de caviar e de toda a sorte de iguarias. O pincel do artista dar-lhe-ia as vestes que, com o pastoreio, não seria capaz nunca de comprar. Voltaria a casa do mestre.
Sem comentários:
Enviar um comentário