- Sente-se ao lado do biombo e espere.
O rapaz procurou a cadeira de estilo Queen Anne que o pintor apontava, através do espelho. Descera a cidade, desviara por carreiros, atravessara pontes, desaguara em vielas envergonhadas, à procura da margem pintalgada de flores onde, ouvira dizer, os mais extraordinários pintores desenhavam com traços primitivos corpos de homens e mulheres, sem deformidades. Escondeu a folha amarela onde desenhara em caracteres pueris as indicações sobre aquela morada e como lá chegar. Não queria que o artista imaginasse sequer as condições da travessia que fizera nem a distância que tivera de galgar. Não queria, enfim, expor o seu segredo, pois, embora tivesse a convicção de que seria talvez compreendido se tomasse a iniciativa de se expor, isso iria consumir-lhe tempo, que era o que mais lhe faltava, apesar de ser jovem.
A espera foi, contudo, inquietante, tendo parecido ao rapaz, a certo momento, que o homem se esquecera dele, enquanto compunha formas sobre uma tela suja, que ora pareciam ser as vagas frenéticas de um oceano ora mais se assemelhavam ao furor desalmado de um vulcão.
No exterior, a cidade adormecera há umas boas duas horas. As seges, porém, ainda desciam e subiam o caminho estreito que o rapaz tomara quando saíra da ponte, levadas por cavalos indolentes, embora o trepidar metálico das carroçarias nas pedras da rua fosse cada vez mais mole. Esperaria quanto tempo mais? Nos cinco minutos últimos, tivera já duas tonturas; estava com enxaquecas e as pernas doíam-lhe, por estarem recurvadas sob a cadeira, imóveis, uma sobre a outra, apontando no chão, e se não fosse a esperança com que acordara naquele dia de mudar a sua vida para sempre, já teria desistido.
O rapaz viu o homem limpar o pincel a um jornal húmido e pensou que este iria por fim terminar o trabalho, até porque a tela onde lançava, com jactos de furiosa inspiração, em cores ocas, as formas que arrancava da sua alma, tinha o aspecto de acabada beleza. Não via ali animal nem flor, embora o motivo principal daquela peça de arte tivesse um pouco de flor e de animal e se assemelhasse a um lacrau em cima de uma flor de lótus. De súbito, sentiu-se confuso. As figuras desenhadas no tecido, depois de secas e com um aspecto já de acabado, enrodilhavam-se umas nas outras e desprendiam-se da base que as enquadrava como um cordão de fumo e não havia nelas nenhuma marca humana nem divina. Só então, possuído de uma invulgar incerteza, ousou olhar em volta. No chão e em cima de uma cómoda derreada, havia mais de uma dezena de telas, todas aparentemente recentes, a julgar pelo cuidado com que estavam enfileiradas, e até havia algumas a secar no espaldar de cadeiras e na cabeceira do leito . Nuns, agitavam-se seres suspensos sobre patíbulos; noutros, moviam-se gigantes de patas minúsculas, em equilíbrio ébrio sobre filamentos dourados que dois títeres maquiavélicos estiravam com as pontas dos dedos. Só numa pintura viu ele motivo de algum regozijo. Era a representação da Virgem Maria grávida, com ar de dores de parto. E, mesmo assim, as cores daquela peça não se enquadravam nas tendências artísticas da mão que criara tudo o resto, resultando do conjunto alguma desarmonia que o jovem não saberia explicar bem.
Dar-se-ia, pois, o caso de se ter enganado na porta e de ter entrado na oficina errada, embora tivesse a certeza de que estava na calhe que tanto procurara. Era uma via que partia da marginal e que abraçava a cidade como se a sufocasse, tão estreita e enviesada era. Nos seus passeios, só nos primeiros cem ou cento e cinquenta passos, havia uma tal variedade de flores exóticas que diria estar no paraíso de Adão. Não havia correnteza igual, nem nessa cidade nem nesse país, embora o jovem fosse ainda jovem e não pudesse dizer, se quisesse ser verdadeiro, que alguma vez tinha posto pé fora da comarca.
Confinado a um canto, atrás do biombo, junto à porta semicerrada, o rapaz sentiu que o pintor o olhava e esperou que este guardasse os pincéis e as paletas, os acrílicos e os dissolventes, os trapos e os jornais e que depois viesse finalmente falar consigo. Não foram defraudadas as suas esperanças. E ao fim de algum tempo, depois de esfregar um farrapo nas mãos negras que lançou sobre a flor de lótus, onde o escorpião adorava como se estivesse num altar, o artista disse:
- Já o observava há mais de meia hora e perguntava-me o que está um rapaz deste porte a fazer na oficina de um artista tão vil.
O jovem encolheu-se na jaqueta e enfiou as mãos nos bolsos das calças. O luar abandonara as ruas e o rio e transferira-se inteiro para o janelo do cubículo onde os dois se achavam, lançando sobre o rapaz uma cor de jade que transformava os seus belos anéis do cabelo em correntes de inacessível beleza. O artista não terá ficado indiferente face a tal mudança e aproximou-se para tocar no fino ouro dos seus encantos apolíneos, por mero desinteresse profissional, procurando lugarejos onde tal rigor pudesse ser divino. Constatou, porém, o homem que não havia, naquele ser superior, nada que lembrasse a sua real humanidade.
- Tudo em si é grande demais, perfeito demais, sublime demais – exclamou, como se a sublimidade, a perfeição e a grandeza pudessem alguma vez ser menos do que grandes, perfeitas e sublimes.
O rapaz sentiu então que algo nele era incompleto. Nunca pensara nisso. Mas tantas horas e horas a correr montanhas, a bracejar nos rios, a lançar pedras e paus tinham-no, quem sabe?, transformado num ser perfeitamente imperfeito. Em algum momento, no seu longo percurso de auto-superação, deveria ter reduzido o seu esforço, para ser mais homem e menos deus, menos fera e mais animal; mas os prodígios tão nesciamente alcançados fascinavam-no e, achando-se sábio, não parou nunca nem sequer para se ver. Bastava-lhe a contemplação interior, quando, diariamente, esgotadas as forças, caindo sobre o leito, a cabeça se esvaziava e se enchia o coração.
- Os seus olhos falam-me de viagens...
O rapaz lera um Dante; devorara um Séneca; comparara um Rembrandt com um Da Vinci. Para ele, a alma imortalizava-se nas mãos dos grandes mestres, trabalhada, amadurecida, decantada, como obra de arte, e crescia em outras obras, sob a mesma chama, que era a inspiração. Decidira, pois, ser Apolo, num tecido branco.
O artista fechou o janelo, pois a humidade da noite, em que a cidade adormecia, caía sobre as paisagens e os seres pintados nas telas e alterava subitamente os seus verdes. No dia seguinte, voltaria a afinar as cores e a dar brilhos onde estes se impunham. Agora, dizia, estava esfomeado e os xelins que resgatou aos fundilhos do avental dariam para uma sopa e uma caneca de vinho. Depois, falariam.
O jovem acenou com a cabeça, como faz um bom discípulo. Com o janelo já fechado, iluminado pelo pavio aceso de uma candeia, o seu rosto afundava-se em escuridão. Não supusera que tivesse sido tão difícil chegar ali e que, tendo encontrado, finalmente, o seu mestre, este lhe falasse de vinho e sopa. Imaginava, aliás, os artistas aureolados de cores mágicas, de pé em pedestais, artilhados com os sentimentos mais nobres. Pois bem. Os artistas comem e bebem.
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