sábado, 2 de outubro de 2010

O Capuchinho Vermelho

Passo todos os dias em frente à cabana do Capuchinho Vermelho, ponho as minhas patorras no peitoril da janela e espreito, para ver se a vejo. A minha vontade é dar grandes passeios de bicicleta, com ela, pela floresta. Mas até agora, não tive ocasião, porque a mãe está quase sempre a vigiá-la e dá-lhe tarefas muito demoradas, de modo que o Capuchinho está sempre ocupado. Hoje, porém, acho que é o meu dia de sorte. Se a convencer a sair comigo, vou fazer-lhe umas perguntas, para ficar a conhecê-la melhor. Até já tenho um papel para escrever as respostas dela.

A mãe está na horta a colher frutos e legumes muito viçosos e está tão entusiasmada que não reparou que já tem o cesto cheio. Que desperdício!

O Capuchinho Vermelho está sozinho na cozinha. Vou tentar falar com ela, mas não a posso assustar. A mãe disse-lhe coisas muito más a meu respeito.

- O lobo é um animal ignorante e muito malvado – disse-lhe ela. – Não podes falar com ele.

Espreito. Há uma mesa preparada para o almoço. No centro, há um fogo, com um caldeirão enferrujado em cima. O Capuchinho vai buscar uma colher de pau gigante e coloca-a lá dentro.

- Uf! – Diz, já cansada. – Se não mexer o caldo deste caldeirão, a avozinha não terá a sua refeição.

Entro pela janela e o Capuchinho dá um salto. Quase cai no caldeirão.

- Que grande susto! Quem és? – Pergunta ela, mas, logo, refeita, acrescenta: - O lobo, bem se vê. A minha mãe avisou-me que não te falasse. És um animal feio e vil.

O Capuchinho vê uma lágrima rolando pelos meus olhos de lobo, até ao chão, e, julgando que é veneno e que este vai abrir uma cratera na cabana, para a engolir, dá um grito, ainda mais assustada. A mãe, que ainda está na horta, em cima de uma laranjeira, a acabar de encher um cesto, desequilibra-se, por causa do grito, e quase cai.

Quando ela chega, já eu lá não me encontro. A mãe coloca os frutos e legumes sobre uma toalha branquinha e diz ao Capuchinho Vermelho que os lave e prepare, para os levar à avozinha, que mora muito longe e está doente, juntamente com alguns outros alimentos que ela já pôs de parte, tais como cereais e doces.

- A minha bicicleta tem o selim partido – diz a menina. – Posso ir amanhã?

- Tem de ser hoje – responde-lhe a mãe. - Estás a ver este mapa? Deves guiar-te por ele e seguir o caminho mais curto. Mas não fales com ninguém pelo caminho.

O Capuchinho ainda tem seis anos e mal começou a escola, de modo que não sabe orientar-se por mapas, por isso imagino que tenha de ser eu a dar-lhe uma ajuda. O difícil mesmo será convencê-la de que não sou tão mau como a mãe dela diz.

Apanho-a a dois passos de casa, com a merenda para a avozinha pesando-lhe no braço, e já está desorientada. Ofereço-me para lhe levar o cesto e para lhe ensinar o caminho, mas ela olha-me com desconfiança e diz:

- Não. Que sabes tu de formas de orientação? Além disso, tens ar de esfomeado e se te desse o cesto tu comias tudo e a avozinha ficaria cheia de fome.

É verdade que estou com alguma fome e uma colher de compota de cereja e uma fatia de queijo vinham mesmo a calhar, mas hoje decidi ajudar o Capuchinho Vermelho e não vou pregar-lhe nenhuma partida… Penso. E para lhe mostrar que tenho a barriga farta e não estou interessado em comer a merenda da avozinha, o que não é verdade, encho os pulmões de ar, projecto o peito para fora e faço um balão com as minhas bochechas. O Capuchinho estatela-se a rir.

- Estás a ver este mapa? – Pergunta-me. - A casa da avozinha é do lado de lá da ponte, mas, para lá chegar, tenho de saltar aquele tapume, subir a encosta, e passar em frente à cabana do feiticeiro, o que demora muito tempo e assim só chegarei ao meu destino já depois de o sol se pôr.

- Viste o provérbio que estava escrito no tapume?

O Capuchinho aproxima-se e vê umas latas tombadas e outras de pé e ralha com uma galinha que faz tiro ao alvo.

O melhor será construir um barco. Olho à minha volta, para ter ideias, e vejo árvores e vegetação da floresta mediterrânica. Não precisa de ser um barco muito grande, só tem de equilibrar-se no rio e ter espaço suficiente para nós e para o cesto. Aqui, a menina não está de acordo comigo. Ela quer um barco gigante, para passear nele os animais da floresta.

Resolvido este pequeno problema, acabamos por nos ficar por uma embarcação de porte médio. Procuro ferramentas e, pouco tempo depois, lá vamos nós a atravessar o rio.

A cabana da avó, assim, fica, realmente, muito perto e já se vê ao longe, entre os pinheiros e os eucaliptos, mas, à medida que nos aproximamos, parece que ela anda para trás, como se tivesse rodas.

Presumo que andem por ali caçadores, porque já abriu a época de caça e as lebres andam assustadas de um lado para o outro, sem saberem onde se esconder. Decido ajudá-las e metê-las no cesto, debaixo da toalha branquinha e engomada, bem apertadinhas. A certa altura, tenho já no cesto cinco lebres gorduchas e preciso de pôr fora alguns alimentos, porque não há lá lugar para todos, mas o Capuchinho Vermelho não se importa, porque eu lá o convenci de que, com um saco de arroz, as lebres dão para fazer um prato delicioso à avozinha.

A certa altura, lá se vão os queijos, as compotas e os doces de ovos… para a minha barrigona, é certo… Quanto às embalagens...

- Que grande refeição! – Exclamo.

Estamos em frente à cabana da avozinha e solto as lebres, no campo.

- Então e o arroz da avozinha? – Pergunta o Capuchinho Vermelho.

Fico encabulado. Mas, de repente, tenho uma ideia.

Quando vou para apresentar uma boa desculpa ao Capuchinho, que foi sempre tão simpático comigo, ouço gritos no interior da cabana. É um caçador, com uma arma de fogo, que, vem assaltar a avozinha, mas, ao ver mais de vinte lebres à solta pelo monte, desiste dos seus intentos e sai, aos tiros.

A avozinha está recuperada do susto e da indisposição e agradece à neta ter chegado a tempo de evitar uma tragédia.

- Que lindos olhos tem este lobo! – Diz ela. – Queres jantar connosco?

O lume está aceso; do caldeirão, vem um cheirinho delicioso a caldo de pedra, e só falta pôr a mesa e confeccionar um bolo. Eu mesmo o farei.

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